Chega. Pedi demissao. Vou voltar pra casa. Mais uma vez a vontade de estar em outro lugar que nao onde estou agora me tomou de assalto. E' quase um vicio: chegar, abrir a porta, curtir a festa, partir. Encontrei minha melhor amiga sul-coreana dia desses. Nao a via desde 2001, quando viajamos por toda Coreia do Sul. Gastamos horas conversando sobre todas as coisas, nossas vidas, os caminhos que elas tomaram, as pessoas. As pessoas! Eu amo as pessoas. Elas fazem todo o sentido. Todas as respostas estao nas pessoas e a maioria das pessoas nao percebe. E' dificil, eu sei. So' as pessoas te fazem humanista, te conduzem ao divino, te enterram no inferno. Como e' sublime ser conduzido ao divino! Como e' divino ser enterrado no inferno! Budista, Young Soon (que lindo nome o dela) tem a percepcao afiada. Por isso nossa conversa foi tao longe. Algumas pessoas nao precisam de muito tempo para ir tao longe. Gostei quando ela me chamou de "traveling soul". Ela sacou perfeitamente o meu desespero em chegar e partir, conhecer, consumir, ver, observar, conduzir, entregar-se, despreender-se, LIBERTAR-SE. E ainda assim tudo parece ser bem menos do que poderia ter sido feito. Mas e' do realizado que se obtem a felicidade.
Pedir demissao e' muito doloroso pra mim. Eu nao gosto de pedir demissao. E' como dizer nao. Porque significa partir. E nas minhas partidas muita gente fica pra tras. Me vejo obrigado a deixar na estacao muita gente que gostaria que subisse no trem comigo. E' tao egoista... porem tao sincero. Vida de trem: assim disse meu gerente la' do restaurante. Levamos vida de trem. Uns descem, outros sobem, uns ficam nas fotografias, outros viajam junto. E ai' eu me pressiono demais. O que estou fazendo comigo? Por que vou vivendo assim? Qual coragem a minha? Qual fraqueza? Sou corajoso por partir ou fraco por nao resistir? Por que eu mesmo causo minhas dores? Porque eu mesmo ofereco minhas curas. O que as pessoas representam pra mim? E o que eu represento para as outras pessoas? Algo. Nada. Ou tudo. Nada ou tudo e' assustador. Puta que pariu, nada ou tudo e' muito assustador.
Mas e' uma decisao tomada. Eu gosto das decisoes tomadas. Implica um monte de coisas que preciso agora de mais 15 latas de cerveja para lista-las. E o meu dinheiro acabou e nao tenho como compra-las. Vai fiado? Algum camarada vai me comprar um pacote de 12 latas. Certeza!
Alias tomei muita cerveja no ultimo mes. Todas as noites. Quero dizer, TODAS as noites, entende? Qual a desculpa? Hummm... proximidade da partida; fuga da realidade; diversao; gosto de cerveja mesmo.
Sinto muito por nao ter escrito tanto quanto eu gostaria de ter escrito. Ja' disse antes. Mesmo que tivesse um laptop nas maos 24 horas ao dia, ainda assim nao teria escrito tudo o que gostaria de compartilhar. Alguns entendimentos sao tao proprios que nao ha' como compartilhar. Por mais que eu queira. E' preciso parar e deixar cada um seguir na onda que melhor aparecer. E eu vou `as lagrimas quando nao consigo dizer tudo. Porque nao e' tudo que precisamos compartilhar. Nao por nos mesmos. Mas porque cada um segue numa fase diferente, numa levada diferente, num nivel diferente de entendimento. De forma que o mais simples e lindo chega a nao fazer sentido algum. Eu nao posso deixar o mais simples nao fazer sentido algum. Prefiro conserva-lo ate' que o faca. E' um grande problema esse. Calar-se. Eis o maior aprendizado do isolamento. Da solidao.
Ouvir. Observar. Sair do proprio corpo. Render-se. Refletir. Refletir: fazer retroceder, desviando da primeira direção; reproduzir; espelhar; retratar; revelar; repercutir; pensar; ter influência; produzir efeito; ponderar; observar; objectar; incidir; recair; repercutir-se; transmitir-se.
Quer saber, amanha vou subir a montanha. Ela esta' linda. Coberta de neve, reluzindo o sol. Eu preciso pegar o carro e subir. Sim, e' o que vou fazer. Agradecer e exaltar o meu tempo.
La' eu tento me despedir dos meus dias angelenos.
terça-feira, 11 de dezembro de 2007
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
Os textos estao mudos
Eles sao educados. Silenciosos. Dao passagem para pedestres e automoveis. Andam vagarosamente pela calcada. Compartilham o cafe da manha e o lanchinho da tarde. Sao pacientes: 8h00 da manha estao plantados na porta da CBS; 17h00 tambem. Eles sao os grevistas mais comentados dos ultimos tempos. Sao os roteiristas de Hollywood. Os caras que escrevem toda a palhacada e as coisas legais que o mundo inteiro ve. Cada pessoa desse planeta sabe dizer "porra, aquele filme tem uma frase...". Eles exibem diariamente cartazes com o desenho de um punho cerrado segurando uma caneta. E distribuiram por toda Los Angeles outdoors dizendo "Studios, do the write thing!". Muito bem sacado.
Texto e' tudo e os textos estao parados, engavetados. Angelina Jolie falando besteira perde (grande) parte do charme. Brad Pitt dizendo idiotices fica sem graca (ou nao?). Varios programas de televisao estao atrasados porque os atores nao (tem) sabem o que falar. E' uma greve interessante. Sem abrir a boca voce tem o poder de calar a todos. E' so' uma questao de atitude. Se vai dar resultado ou nao, essa e' outra cronica...
Uma amiga que conheci bem pouco tempo atras - roteirista, cineasta e antropologa - me chamou de observador participante. O que os antropologos diriam de "afetado" pela cena. No sentido de que o afeto e' fundamental e eu me envolvo com cada momento meu. Puts, ela esta' certa. Eu sou assim. Um roteirista da CBS foi almocar no restaurante dia desses. Quando me vi, ja' estava entupindo o cara de perguntas. Ele me explicou que os roteiristas estao em greve porque ganham menos de 1% do produto final - o filme. Em termos de porcentagem, deve ser uma merreca mesmo. Os diretores ganham milhoes. Os atores ganham bilhoes. A industria ganha trilhoes. Os caras que sao o principio de qualquer historia... bem, esses sao os grevistas. Lembrei agora de uma entrevista de Charles Bukowski, que encontrei na internet, onde ele diz que viveu tudo porque sempre ha' algo para ser dito. Por isso ele se envolveu com tantos momentos.
Enfim, todas as manhas eu caminho por entre os grevistas. Estaciono meu carro na quadra atras da CBS. Caminho um pouco pela Beverly ate' o cruzamento com a Fairfax. E naquela esquina mora uma mendiga, no ponto de onibus. Uma senhora. Largada, suja, fetida. Nuvens ou sol, embaixo de um cobertor encardido. Tudo o que ela tem sao alguns trapos guardados num carrinho de supermercado e uma mala de viagem bem velha. Sempre sentada, esperando alguma coisa. Nos ultimos dias ela tem comido uns hamburgueres. Nao sei como. Talvez alguem passse por la' e garanta a refeicao. Ainda nao descobri onde ela faz as necessidades fisiologicas. Eu devo ter virado mais um no cotidiano dela. Muito embora ela ainda nao tenha olhado pra mim. Ao menos nao percebi.
Quando atravesso o farol, tem outra mendiga do lado de la'. Morando no ponto de onibus da esquina oposta. Ela esta' sempre lendo um livro. Isso naturalmente me deixa muito curioso. Ja' tive vontade de parar e trocar aquele papo. Mas o cheiro me impede. Mesmo que o meu estomago esteja vazio, temo pelo pior. Vou me superar. Ela e' o tipo de pessoa que vale a pena puxar uma conversa, certeza.
Passos adiante, roteiristas-grevistas manifestam surdamente. Ninguem escreve sobre as mendigas de Los Angeles. Acho que elas nao interessam a ninguem.
Texto e' tudo e os textos estao parados, engavetados. Angelina Jolie falando besteira perde (grande) parte do charme. Brad Pitt dizendo idiotices fica sem graca (ou nao?). Varios programas de televisao estao atrasados porque os atores nao (tem) sabem o que falar. E' uma greve interessante. Sem abrir a boca voce tem o poder de calar a todos. E' so' uma questao de atitude. Se vai dar resultado ou nao, essa e' outra cronica...
Uma amiga que conheci bem pouco tempo atras - roteirista, cineasta e antropologa - me chamou de observador participante. O que os antropologos diriam de "afetado" pela cena. No sentido de que o afeto e' fundamental e eu me envolvo com cada momento meu. Puts, ela esta' certa. Eu sou assim. Um roteirista da CBS foi almocar no restaurante dia desses. Quando me vi, ja' estava entupindo o cara de perguntas. Ele me explicou que os roteiristas estao em greve porque ganham menos de 1% do produto final - o filme. Em termos de porcentagem, deve ser uma merreca mesmo. Os diretores ganham milhoes. Os atores ganham bilhoes. A industria ganha trilhoes. Os caras que sao o principio de qualquer historia... bem, esses sao os grevistas. Lembrei agora de uma entrevista de Charles Bukowski, que encontrei na internet, onde ele diz que viveu tudo porque sempre ha' algo para ser dito. Por isso ele se envolveu com tantos momentos.
Enfim, todas as manhas eu caminho por entre os grevistas. Estaciono meu carro na quadra atras da CBS. Caminho um pouco pela Beverly ate' o cruzamento com a Fairfax. E naquela esquina mora uma mendiga, no ponto de onibus. Uma senhora. Largada, suja, fetida. Nuvens ou sol, embaixo de um cobertor encardido. Tudo o que ela tem sao alguns trapos guardados num carrinho de supermercado e uma mala de viagem bem velha. Sempre sentada, esperando alguma coisa. Nos ultimos dias ela tem comido uns hamburgueres. Nao sei como. Talvez alguem passse por la' e garanta a refeicao. Ainda nao descobri onde ela faz as necessidades fisiologicas. Eu devo ter virado mais um no cotidiano dela. Muito embora ela ainda nao tenha olhado pra mim. Ao menos nao percebi.
Quando atravesso o farol, tem outra mendiga do lado de la'. Morando no ponto de onibus da esquina oposta. Ela esta' sempre lendo um livro. Isso naturalmente me deixa muito curioso. Ja' tive vontade de parar e trocar aquele papo. Mas o cheiro me impede. Mesmo que o meu estomago esteja vazio, temo pelo pior. Vou me superar. Ela e' o tipo de pessoa que vale a pena puxar uma conversa, certeza.
Passos adiante, roteiristas-grevistas manifestam surdamente. Ninguem escreve sobre as mendigas de Los Angeles. Acho que elas nao interessam a ninguem.
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