quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Mercadão no fnal de semana

Não notei quando as duas entraram na fila. Baixinhas, morenas, latinas. Sem nenhum diferencial. Ao chegar pra pesar o prato "Oi, como vão as duas, tudo bem?" "Tudo bem, obrigada", fazendo eco. Acharam graça das bugigangas de halloween que já decoram o restaurante. Pesei, disse o preço. E uma delas "e você, quanto custa?".

Jamais esperaria uma pergunta dessas. Aliás, nunca ouvi uma dessas. Bom, na verdade, sim, okay, parecido com isso. Mas não assim, nesses termos, direto ao assunto, sem firulas, sem meias-palavras, um cruzado de direita na ponta do queixo. Já havia recebido ofertas pelos churrasqueiros: quanto vale um pedaço daquele? posso levar este pra casa? A anestesia travou qualquer boa resposta minha. Simplesmente não falei nada, quando poderia ter falado tudo. Cinco segundos calados foram demais para elas. O suficiente apenas para um "tchauzinho!" e oferecerem-me as costas. Enfim, elas saindo eram melhores do que chegando.

**********

Sacanearam a velhinha, só pode ser. Uma dessas turistas envolvidas com pacotes de viagem para a terceira idade. Parênteses: o nosso ponto no mercadão é definitivamente uma referência turística dentro do Farmer´s Market. Gerações inteiras de japoneses passam por lá e tiram fotos da gente – muito embora japoneses tiram fotos de qualquer coisa –, fazendo-me sentir um animal exótico assando animais em extinção. Escandinavos e russos chovem aos montes, sem economizar nos "oooohhh". Os americanos metidos a consumidores conscientes querem saber a diferença entre frango com alho e frango com bacon. Eu fico a um ponto de berrar "alho é o cheiro do rabo da sua mãe!" e "bacon é essa tirinha que você tem no meio das pernas!" Valho-me das teorias budistas e taoístas que aprendi. E tentam pronunciar os nomes das carnes em português. Já vendi picanja, picana, picanrra, franco com allrro, alacatra e até alcatraz. Sempre tem um termo novo. E não deixamos por menos: "aqui está sua picanja, senhor, bom proveito". Sem contar que na minha torre de comando me sinto num balcão de informações, pois a cada cinco minutos alguém passa por mim só pra perguntar onde é o banheiro, o caixa eletrônico, a padaria, a barraca de frutas, a comida chinesa, onde comprar jornal.

Ah, sim. A velhinha. Alguém deve ter ensinado a ela dois termos em português. Duas palavras amáveis, feitas uma para a outra. A senhora só queria ser simpática, como de fato o era. E então apareceu apenas para dizer "bucetinha e piroquinha!".

**********

Muito movimento à nossa porta. De repente, ouvimos alguém gritando lá no fundo. Gutural, raivoso, partindo de algum lugar de onde eu não consegui ver. O berro foi ganhando volume, sinal de que estava se aproximando. Era uma mulher, gorda, ágil, negra, cabelos bem curtos, usando sandálias, bermuda branca e camiseta azul marinho. Estava transtornada. Quando alcançou a área de alimentação em frente ao restaurante, começou a derrubar todas as mesas, assustando as pessoas na fila. Ninguém agiu com violência para detê-la. Atrás dela veio outra, esta normal, talvez ciente da situação. Com muita calma ela pronunciou algumas palavras e a louca cedeu, bufando, ofegante, porém diminuindo a respiração, hipnotizada pelo som da voz da mulher que lhe falava. Refeitas, as duas partiram.

**********

O maior saco é ficar plantado em frente de casais brigando pra decidir quem paga a conta. O mercadão é sempre cheio, não dá pra ficar esperando pitis de esposas e cinco-minutos de maridos. Preciso puxar a fila. O chavão "não se mete a colher" não vale pra mim. Na totalidade das vezes eu interfiro com esta cara-de-pau que Deus me deu: "ei, vocês querem um dado pra decidir? vocês escolhem um número e eu jogo, okay?". Ou "espera aí, eu tenho um baralho novinho aqui, cada um escolhe uma carta, vai". A discussão acaba na hora, pois cai a ficha do ridículo da situação. Outras vezes eu simplesmente pego um dos cartões de crédito que jogam na minha frente – ou dele ou dela, tanto faz – e realizo a transação enquanto a festa de argumentos prossegue. "Pronto, está pago, assine aqui por favor". Encerrado o assunto. Eles que discutam depois a partilha dos bens.

Dia desses não tive tempo de interferir. O piti falou mais alto que o cinco-minutos. Não lembro quem pagou a conta. Mas não esqueço quando ela largou o prato de comida na máquina de pesar, foi buscar um box-to-go, voltou, com a mão mesmo jogou toda a comida lá dentro, fez o mesmo com a comida dele, colocou numa sacola de plástico e "vamos agora!". Foi. Foram.

**********

Domingo à noite, já estava fechando o caixa, recolhendo todo o dinheiro, tirando todos os recibos, organizando toda a gorjeta. Louco pra beber cerveja, que evidentemente minutos mais tarde estariam vazando dos meus rins e enchendo a minha bexiga. Tomei um susto quando um estrondo seco saiu da churrasqueira dois passos atrás de mim. Um som como o de um saco de cimento caindo das alturas sobre um monte de areia. Buufffff!!!! Olhei pra trás e vi uma nuvem negra de poeira de carvão. O churrasqueiro cabaço tentou apagar a brasa de forma errada. Ele jogou um balde de gelo sobre o carvão aceso. Ele imaginou que o gelo derreteira e apagaria a brasa. A física moderna não permite tamanha cagada. A camada de gelo age como uma espécie de tampão, bloqueando todo o calor que existe ali, criando uma zona de pressão. O ar quente precisa fugir pra algum lugar. Como ele não tem força o suficiente para explodir a churrasqueira inteira, ele empurra a tampa gelada pra cima e gospe pra fora toda a poeira quente. Aprendi isso esses dias. Legal, né?

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Sold out e sem ingresso

O show comecava `as 21h00. Os portoes abririam `as 20h00. Eu cheguei na porta do Music Box pra ver Foo Fighters `as 18h00. Sem ingresso, evidentemente. Estava certo que eu conseguiria um, mas esqueci que a casa tem capacidade para 1.5 mil pessoas, no maximo. O suficiente para esgotar a bilheteria em poucas horas, tratando-se da casa e da banda. Mal pisei na portaria principal e um seguranca de 2.85m esbaforiu na minha cara "sold out! go home, no tickets available! Give up!".


Nao dei um passo pra frente nem pra tras nem pros lados. Fiquei inconformado com tamanha burrice minha. Ouvir aquilo foi mais que agua fria: foi chute de bico fino dois dedos abaixo do joelho. Sai' caminhando pela Hollywood Blvd, imaginando o que fazer. Andei apenas duas quadras. No segundo quarteirao percorrido, um pensamento me ocorreu. "Quer saber, vou voltar e ver o que acontece". Mas o lado direito do cerebro, mais conservador, retrucou rancorosamente. "Acontece o que? Acabou, acabou. Vai pra casa e chega de aventuras bestas". Joguei uma moeda pra cima e o lado esquerdo ganhou. Nao que eu precisasse do dado, pois o lado esquerdo tem minha predilecao sempre.


Voltei. Uma pequena fila se formava. Alguns zumbis circulavam aleatoriamente, como eu. Os mais ousados tentavam negociar ingressos na fila. Eu nao tive essa coragem. Mas tambem nao tive coragem de fazer nada alem de ficar plantado na esquina. Recorri ao meu anjo da guarda, meu mentor.


"Entao mentor, o que faco?"
"Resista, fique ai'"
"Aqui? Parado? Fazendo o que?"
"Nada, catso. Fique ai' e confie na Providencia"


Fiquei. A maioria dos sem-ingresso foi embora assim que os portoes se abriram. Um cara passou por mim e disse "alguma coisa vai acontecer". E sumiu. Gostei do sinal divino. Comecou a esfriar. O ar gelado do outono angeleno arrepiou os pelos dos meus bracos. Recostei-me sob a marquise ao lado da porta principal, bem ao lado de outro cabeca-dura como eu. Um terceiro maniaco juntou-se a nos. Ficamos um olhando pra cara do outro, tipo "o que fazemos agora?".


Deu 21h00, o show nao comecou. "Ah mentor, ta brincando comigo ne?". Puxamos assunto, falamos de musica, de Los Angeles. Sem querer iniciamos uma especie de fila dos sem-ingresso, pois outras pessoas estacionaram depois de nos. Um japones chegou dizendo "estou sentindo que algo vai acontecer". Fiquei intrigado e abri o jogo com meu mentor.


"Mentor, me desculpe se for pedir muito. Mas faz uma conferencia ai' em cima com outros anjos da guarda. Inventem um plano. Iluminem a cabeca do gerente da merda desse lugar. Facam-no vender ingressos extra."
"Calma, estamos fazendo o possivel. Aguente firme e nao saia dai'".


21h30, nada. Minha ultima refeicao havia sido `as 14h00. Estava com fome. Pensei em comprar alguma coisa, mas nao arrisquei perder o lugar na fila dos desesperados. O show nao comecou. Bom sinal: enquanto o show nao comecar, fico aqui. Criei raizes. Ninguem mais entrou no Music Box. Quem tinha de entrar, ja' o havia feito.


"E ai' mentor?"
"Nao saia dai''"
"Nao vou sair, pode deixar"


22h00 nenhum sinal, exceto o fato de o show nao ter comecado. Ai' eu entendi que as entidades la' dos planos astrais estava segurando a banda, enquanto outra falange de anjos iluminava a cabeca do diretor. Ai' eu conclui: eu vou entrar nesse show!

Acontece que os ponteiros bateram 22h30 e nada! Nem show, nem ingresso, nem milagre, nem comida. Eu estava a um passo de me retirar, mas nao poderia trair meu mentor, jamais. Palavra pra mim vale muito. De repente, la' de dentro, saiu um gordinho com cara de manager, a julgar pelo jeito de andar, pela camisa polo e pelo jeito com o qual nos olhou. Quando nos alcancou, apontou para o carinha que estava ao meu lado e "you're the winner, get in!". O moleque nao acreditou, entrou correndo. Fiquei boquiaberto. Agora eu era o primeiro da fila.

"Mentor, por favor... me ajuda... me ajuda..."

O gordinho parou, deu meia volta e pra mim disse "voce, quer ver o show? 2o dolares e voce ta' dentro. Vai rapido!"

"Obrigado mentor!!!! Muito obrigado!!! Obrigado falangistas ai' em cima!!!! Muito obrigado"

Entrei gargalhando. Inacreditavel. Nao acreditava no que acontecia. Emocionei-me. Foi demais. Me senti mais uma vez um privilegiado. Um abencoado. Um sortudo. Qualquer outro adjetivo. Comprei um copo de cerveja, entrei na pista. Alguem que estava na fila me encontrou, tao sorridente como eu. "Cara, voce acredita nisso? Conseguimos!!!" Deu cinco minutos e o show comecou. Um dos melhores da minha vida.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Dia de folga

Hoje era pra ser o meu dia de folga. Mas meu gerente ligou às 9h30 da manhã pedindo pra quebrar o galho lá no restaurante. A caixa do turno da manhã, a Daniela, teve um probleminha por lá e foi demitida. Bom, estou calejado. Mais uma vez eu segurando a onda de Daniela.

Dia tranquilo no mercadão. Muito calor. Sul da Califórnia em chamas. Freeways em alerta. Ar tão seco que me deixou de lábios rachados. A manhã passou rápido, fechei o caixa com pouca gorjeta. Sem brigas desta vez.

Almocei e dirigi em direção à Sunset Strip. Tomei uma cerveja gelada no Raibow e aproveitei para comprar ingressos para o show de sábado no Roxy. Finalmente conseguirei ver Donita Sparks. Mas o calor, a cerveja e a feijoada no estômago fizeram-me mole, devagar. Não tive coragem de encarar as artérias-à-beira-do-infarto da Santa Ana Freeway. Desviei meu caminho rumo ao Griffit Park. Sim, a melhor idéia que tive no dia: fugir para os bosques de Hollywood.

Logo deixei para trás a loucura urbana, subindo as vias estreitas do parque. Parei numa das cabanas do lugar, comprei uma torta de maçã e café expresso duplo. Voltei para o carro e continuei subindo até onde o asfalto permitiu. Chegando lá, silêncio total. Apenas alguns visitantes à distância percorrendo algumas trilhas. Um carro ou outro chegando como eu. Barulhinhos de aves e esquilos pisando nas folhas ressecadas. Ruídos de avião bem ao fundo, só pra manter viva a noção de cidade grande. E o calor... Desci, fiquei descalço e andei até a primeira árvore que encontrei. Sentei, comi com calma a minha torta e apreciei o café com o devido respeito.

Um casal de esquilos desceu da árvore pra me observar. Devem ter sentido o cheiro da torta e vieram averiguar. Eu ofereci, mas eles não quiseram. Não sabem o que perderam. Saíram brincando pelos galhos dos pinheiros. Um deles assustou uma coruja, que foi obrigada a trocar de copa.

Entardecia. Lembrei de uma garota que conheci pouco tempo atrás. A chamo de Sweet. Seria muito bom se ela estivesse aqui. Sobre a cama de folhas secas de outono e gravetos dos pinheiros angelenos, deitei e tirei um cochilo.

Ao abrir os olhos, uma lua cheia nascia por trás das copas das árvores. Ali, bem na direção da minha vista. Grande. Leitosa. Ainda amarelada pelos raios do sol que mal havia se posto. Fiquei na mesmíssima posição só pra ver a lua mudar de lugar. Subir de um galho para o outro até ganhar o céu completamente. Quando ela atingiu o seu objetivo, aí sim eu fui embora.

domingo, 21 de outubro de 2007

O que são problemas?

Fiz um negócio da China e cai num conto das Arábias, mas não vou ficar 1001 noites sem dormir (nossa, que piadinha ruim...). O Departamento de Trânsito da Califórnia ainda não liberou a documentação do meu carro porque a oficina autorizada do órgão notificou que o possante está soltando fumaça demais. Tem uma pecinha do motor que precisa ser trocada, mas parece que é uma parafuseta tão cara que não vale o preço do carro inteiro. Eu tenho 90 dias para resolver a situação, foi o que disseram. O que também não me impede de rodar por aí. Descobri a terrível verdade: eu e George W. Bush temos algo em comum, estamos ferindo o Protocolo de Kyoto. Toda essa constatação me fez muito mal, me carregou de energia negativa, me cercou de uma aura ruim e agora bati o carro. Nada grave, apenas um amassado na ponta dianteira direita. Inacreditável. Eu digo novamente: as coisas acontecem, de uma hora pra outra.

Nas primeiras horas os meus músculos travaram, fiquei com os ombros doendo de preocupação. Parei pra pensar, pensar, pensar. Caí numa situação e tenho de conviver com ela. Criei um problema, não tenho como evitá-lo. Às vezes temos a mania de evitar uma realidade na qual já estamos imersos. E isso só aumenta o problema. Ou melhor, o problema persiste. Ficamos mordendo o rabo sem sair do lugar. É impossível alterar a realidade. É preciso aceitá-la. O melhor da vida é aprender o que fazer com a realidade até que a solução venha à tona. Um passo para o lado e você já vê a realidade de outra maneira, então tudo muda. Tudo passa a fazer sentido. A solução, seja qual for, vai aparecer. É só uma questão de percepção. Quanto mais sentimos que podemos perceber determinada realidade de um modo diferente, mais a vida flui. Eu sei, não é nada fácil. Não tenho a receita pronta, mas indico os seguintes ingredientes: uma parte de auto-confiança e/ou fé na Providência Divina; uma boa dose de desprendimento; doses homeopáticas de paciência.

Precisava pensar, encontrar uma nova maneira de enxergar esta nova realidade. Lembrei do filósofo Vítor Sierra. Antes de alcançar a selva angelena, tomei com ele um último café da manhã na vida paulistana. Enquanto eu fechava a mala, ele me apareceu com um pequeno livro. Disse: "Leve esse livro com você". Seco. Direto. Uma única frase cercada de um discreto sorriso. Os seus olhos na verdade disseram: "Não se esqueça de mim. Talvez em algum momento esse livro te ajude." Com esse diálogo em mente, inconformado por ter batido, voltei pra casa e vasculhei a mala de viagem. Peguei o livreto, fui pra varanda do apartamento, sentei sob o sol. Fechei os olhos, meditei um pouco. Drenei dois copos de vinho tinto. E só então abri as primeiras páginas do "Meu Primeiro Livro de Piadas".

Fui me divertindo com as piadinhas de louco. Um louco falou para outro louco. "Mandei uma carta pra mim mesmo". "Ah é? E o que ela dizia?". "Não sei, ainda não recebi". Dois loucos tomando banho no clube. "Duvido você subir nadando pela água até lá em cima no chuveiro". "Eu não. Aí você fecha a torneira e eu caio". Um louco fugiu do hospício, parou um táxi e perguntou ao motorista. "O senhor está livre?". "Sim, estou". "Então viva a liberdade!!!"

Liberdade.

Aí então um outro de mim sentou na minha frente, me olhou bem nos olhos e perguntou. "Qual o problema de ter um carro amassado, que solta fumacinha e não vale porra nenhuma?". Eu respondi: "Nenhum". E o outro de mim que estava me olhando ficou muito feliz, vocês tinham de ver. "Acertou!!! Não há problema algum em ter um carro amassado, que solta fumacinha e não vale porra nenhuma".

Ué. O que eu vou fazer se comprei um carro parecido com um camelo? Vou me divertir com ele. Se o antigo dono não quiser a caranga de volta, vou afundar abraçado com o hondinha. Quero dizer, afundar coisa nenhuma, o hondinha vai comigo para o céu. Quero dizer, eu vou para o céu. Se o hondinha vai ou não, é problema dele.

sábado, 20 de outubro de 2007

Gorjeta vale mais que dinheiro (?)

Fechei mais um turno do caixa e saí para dividir as gorjetas em algum lugar mais reservado na praça de alimentação. Um funcionário da cozinha veio correndo atrás de mim. Depois outro. Notei que eles queriam mesmo me acompanhar. Como a gente chama os novatos lá no restaurante, antes eu era apenas um cabaço. Já haviam feito isso antes, mas, como agora eu perdi o cabaço, senti algo diferente. A idéia era realmente me "investigar".

"Ei, por acaso vocês estão aqui pra me investigar?"
"Não, é pra acompanhar, pra ver se tá tudo certinho, se a gorjeta está sendo dividida corretamente, entende?"
"Como assim? Vou pegar o dinheiro da gorjeta pra mim?"
"Não, não é isso... é só pra acompanhar..."

Respirei fundo, contei até 1350 em dois segundos e me fiz de besta. "Tudo bem, vamos lá". Separei nota por nota, funcionário por funcionário, beeem devagar, só pra eles acompanharem.

Voltei pra cozinha com o dinheiro deles. Levei na brincadeira. "Aqui a parte de vocês. Mas está havendo a revolução da cozinha por acaso? Pressão total em cima dos caixas? Tá certo..."

Fui embora remoendo aquilo. Fui tratado como desonesto, injusto, capaz de roubar gorjetas por pessoas tão trabalhadoras quanto eu. Por pessoas que passam as mesmas dificuldades que as minhas. Por pessoas que lutam pelos seus míseros salários tanto quanto o meu. Pessoas, sempre as pessoas. Dinheiro, sempre o dinheiro.

Como eu não aceito trabalhar assim, dia seguinte fui direto para o meu gerente. Logo cedo, bem após dizer bom dia. "Chefia, está acontendo isso..." E coloquei toda a situação. Ele tinha algumas opções pra me dar. Me ofereceu esta: "Vá contando e repartindo a gorjeta durante o expediente, aqui mesmo no caixa, depois só entregue a cada um. E se alguém reclamar, mande falar comigo."

Engraçado observar o quanto os funcionários da cozinha ficaram ansiosos no final do turno. Pois eu não saí do meu lugar, fiquei contando tudo ali mesmo na minha sagrada estação de trabalho, na minha intocável torre de observação. Juntei a notas e fui entregando um a um. Muitas caras de desgosto fizeram-me saber. Uma delas arriscou abrir a boca: "Você não sabia que os caixas precisam estar acompanhado por alguém da cozinha?" "Não, não sabia. Nenhum superior meu me informou disso. Qualquer coisa, fale com o gerente. Boa tarde a todos, e até amanhã cedo". Parti.

8h30, abri o restaurante com um cozinheiro, uma auxiliar e um lavador de pratos. Bati meu cartão, estacionado bem no centro da cozinha. Os três me cercaram, vieram falar comigo ao mesmo tempo. Eu outra vez me preparando para a batalha da argumentação. Eu outra vez trocando verbos com as pessoas. As pessoas. Bom, eu também sou uma pessoa. "Você não sabia que os caixas..."

"Escutem bem o que vou dizer. Todos vocês escutem bem. Eu não preciso ser investigado. Eu não preciso que nenhum de vocês nem ninguém duvide da minha honestidade. Eu não quero ser tratado como alguém que está roubando dólares de vocês. Eu sou um cara que se dá bem com toda a equipe da frente e da cozinha. Eu sou um dos poucos que entram aqui pra conversar com vocês. Eu trabalho muito como todos vocês. Eu não aceito ser desrespeitado porque eu respeito cada um aqui dentro. Eu sou pago tanto pra controlar o dinheiro do caixa como para repartir a gorjeta. É o meu trabalho, não o seu. Não me desrespeitem. Nunca mais. Jamais."

Três pares de olhos ficaram olhando pra mim em silêncio. Até que algum deles sentiu vontade de me pedir desculpas. Desculpas aceitas, sem problemas, claro. E não se falou mais nisso.

O dia passou tranquilo. Não tive como evitar a hora de fechar o caixa e as banditas gorjetas. Passar por aquilo tudo de novo, dialogar, conversar, bla bla bla... Mas uma idéia me ocorreu. Primeiro fechei os pagamentos do turno. Recolhi o dinheiro, as notas fiscais, os recibos, passei o bastão para o caixa responsável pelo turno posterior. Peguei a fortuna da gorjeta matinal. Deve ter dado uns cem dólares e poucos. Ou menos, talvez. Para ser repartido entre uns 12 funcionários. Enfiei tudo num saco de papel e entrei na cozinha, acompanhado do discurso:

"Olá. Aqui está todo o dinheiro da gorjeta. Agora vamos inverter. Um de vocês conta e eu investigo. Alguém aí conta e eu só acompanho. Quem quer pegar essa bolada aqui (erguendo o saco de papel)? Você? Não? Você? Não? Você? Não? Você? Não? Ninguém quer contar a gorjeta enquanto eu observo? Okay, então eu deixo todo o dinheiro aqui e vou almoçar tranquilo. Repartam sem ninguém observar, apenas entreguem a minha parte daqui a meia hora. Certo? Não também? Então eu vou dividir esse dinheiro e já volto com a parte de vocês."

Ninguém deu um passo porta afora.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

William pensa demais

William caiu na estrada. Colocou seus oculos escuros e seguiu direto para a freeway. Travou o cinto de seguranca com a mao esquerda e empurrou Beatles adentro do CD player com a mao direita. Mal ajeitou os retrovisores. Aumentou o volume ao limite do insuportavel e foi direto para Getting Better. Ao primeiro acorde, cantou como quis. Dancou sentado ao volante. Abaixou o vidro, deixou o ar bater na cara, reverenciou o sol, curvou a fronte ao ceu. Admirou cada palmo de concreto dos contornos da cidade grande. Silenciou-se em respeito `as curvas das montanhas.

I have to admit, is getting better all the time. Getting so much better all the time. William sacou do bolso a foto dos seus filhos. Cheirou-os. Beijou-os. Falou com eles. William veio `as lagrimas all the time. Nao parou de cantar nem de pensar. William nao sabe porque se submete a tanto. William nao sabe de nada. Ainda assim ganhou um sorriso da garota que trafegava na mesma mao. Um aceno, uma buzinada. Ele canta, danca e chora. Vai devagar, nao liga para o comboio que o segue. Ele pertence a tudo e a lugar nenhum. Ele volta `a mesma musica quantas vezes forem necessarias.

William ri ao rever os arquivos de sua memoria. E tambem se diverte com as frases coladas nos carros da rodovia. Ele tem mania de ler placas de automovel e tentar decifra-las. William e' um cara que baba pelos Camaros. Ve um carro "just married" e acelera um pouco mais so' para ver o rosto das pessoas e pensa "hahaha, comecou o tormento de suas vidas". Sarcastico demais. Mas William se sente um idiota egoista e sabe muito bem que nao e' nada disso. Pede desculpas ao casal e deseja-lhes paz e tranquilidade. Repete o pedido, por via das duvidas... Nao quer ser punido pelo mal pensamento.

Pois William tem sido beneficiado pelos bons pensamentos e agradece do fundo do coracao a todas as pessoas. Ele nao para de pensar. Pensa em escrever tudo o que esta' pensando. So' que William pensa muito mais rapido que sua capacidade de escrever. Nem que tivesse um computador no colo 24 horas por dia, ainda assim conseguiria faze-lo. Ele flutua, mergulha num mundo que nem ele conhece. Pensa tanto que comeca a ficar agitado, tao agitado que precisa de um pouco mais. Sente uma vontade enorme de ficar bebado. William quer se desconectar, simplesmente nao quer fazer parte de nada, nao quer fazer parte de nada disso. Mas nao pode porque sente prazer em sentir seu organismo bem vivo.

William usa Dead Kennedys como estimulante. Toma uma overdose de Let's Lynch the Landlord. Sim, vamos linchar todos eles! William quer acabar com essa palhacada. William vai ficando nervoso `a medida que pensa em linchar todos eles. William esta de saco cheio de tanta gente burra, de tanta gente preguicosa, de tanta gente que nao se da' ao trabalho de se servir. William se irrita consigo mesmo porque tambem sente que tem dificuldades de se enquadrar em alguma coisa ja' que ele pertence a tudo e a todos. William se irrita com a sociedade, se irrita pelo simples motivo de as pessoas pensarem tao diferente uma das outras e nao conseguem chegar a lugar nenhum. William ficou puto pra caralho com as pessoas que fazem perguntas cretinas e satisfazem-se com respostas estupidas. William descobre que nao adianta fugir, que sempre havera um tormento. William conhece a sua felicidade e por isso mesmo esta ciente da sua tristeza. Nao entende se isso e' bom ou ruim. William por algumas milhas nao queria ser assim. Ele queria simplesmente seguir adiante como faz a maioria. Mas ele e' tao idiota que tambem se aborrece com essa ideia porque simplesmente seguir adiante nao tem graca nenhuma. Ele chega a conclusao que vai passar o resto da fica pensando, admirando a vida, emputecendo-se com as pessoas, admirando as pessoas, calando-se e assalariando-se em busca de uma aposentadoria que garanta as barbas brancas de sua velhice.

William sofre demais por pensar demais. E tambem suporta demais para seguir as regras. E William sempre acaba conhecendo pessoas interessantes, sempre se cerca de pessoas interessantes para salva-lo de qualquer encruzilhada. Ele dorme mal, acorda todas as madrugadas pensando exatamente do lugar onde parou de pensar antes de dormir. Ele fica pensando nas pessoas, faz preces para todas elas. E quando esta na estrada fica pensando nisso tambem. Uma cerveja antes do almoco e' muito bom pra ficar pensando melhor.

Ate' que William fica de saco cheio de tanto pensar. "William, pare de pensar e respire fundo", grita-se. William se acalma, volta `a vida. Ouve as batidas do seu coracao. Retoma os enquadramentos da janela, procura estacoes de radio. Ele vive `as custas de trilhas sonoras. Encontra um transito pesado e sabe que e' assim mesmo. Ele agradece pela cidade, pelas fachadas dos predios, por ser urbanoide viciado em cimento. Sabe tambem que nao consegue esquecer do ceu que o conforta. Sonha com o dia que possa fugir alguns dias nas montanhas.

William se acalma e agora aposta no R&B de Ray Charles. Delicia-se com o piano de Ray, com as vozes de suas cantoras, num c^antico quase mantra. Saboreia cada segundo do seu dia. Tateia cada molecula do ar. Rastreia cada cheiro das fumacas automotoras. Mas Ray quis cantar Eleanor Rigby e tambem pergunta `a todos "oh, look at all that lonely people! Where do they all belong? Where do they all come from?". E William ve todos aqueles solitarios como ele ao seu redor no transito da cidade e todos aqueles sentimentos comecam a voltar a tona e lamenta-se por tantas pessoas e lembra da imbecilidade humana que ainda persiste e...

Chega William! Desliga esse radio e desce desse carro agora!

sábado, 13 de outubro de 2007

5DDJ841 California

Ahmed Assam nasceu na Síria e cresceu em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Veio para os Estados Unidos ainda novo, estudou engenharia eletrônica em Ohio, casou e teve a primeira filha. Mudou-se para New Jersey por uma boa oportunidade de emprego e abriu espaço para nascimento da segunda filha. Decepcionado com o frio-que-corta-os-lábios do nordeste americano, conseguiu uma transferência para a Califórnia, uma casa confortável em Orange County e passou a trabalhar mais para dar conta da chegada da terceira filha. E então resolveu vender o carro pra mim.

Encontrei o telefone de Sam num classificado de jornal. Ele foi o primeiro da lista que atendeu ao meu chamado. Só por esse motivo cortei todas as demais opções. Não gosto de muitas opções, elas só me complicam a vida, tiram meu sono, não permitem que eu faça escolha alguma. Pelo contrário, só prolongam qualquer decisão, se é que consigo tomá-la.

"Oi, boa tarde. Li o seu anúncio no jornal e estou interessado. Ainda está vendendo o carro?"
"Sim, estou."
"Gostaria de dar uma olhada. Você pode me passar o seu endereço ou vamos marcar em algum lugar?"
"Conhece o Starbucks na Harbor?"
"Sim, conheço."
"Okay, vamos marcar lá daqui a pouco, às 19h00?"
"Fechado. Como é o seu nome?"
"Sam"
"Sam?"
"Sim"
"Ah tá. O meu é William"

Ele chegou um pouquinho antes. Coisa de árabe. Bem, na verdade, eu que cheguei um poquinho depois. Coisa de brasileiro. Nos cumprimentamos, ele foi bastante cordial e direto. Acho que os árabes são assim sempre: mercadores, vão direto ao ponto, sabem falar e negociar. Ele vestia calças jeans, estava com o cabelo bem aparado e barba feita.

"Então, William. Esse é o carro. Está muito bem conservado. Milhagem razoável. Os quatro pneus são novos. Passou por uma revisão recentemente, posso te dar todas as notas fiscais do mecânico. Anda bem, agüenta a freeway. O único problema é esse amassadinho aqui atrás."

Ele disse tudo o que eu precisava ouvir, porque é tudo o que eu entendo de carro. Não me dei ao trabalho nem de abrir o capô. Mas fiz minha encenação.

"Podemos dar uma volta?"
"Sim, vamos lá"

Viramos a primeira esquina. O pisca-alerta funcionou direitinho. "Mas diga, Sam, você mora por aqui?"

"Sim, moro aqui perto. A minha mulher usava este carro. Mas queremos comprar outro mais novo e decidimos vendê-lo."

Dei uma aceleradinha. O carro puxou, foi bem. Farol alto, okay. Lanternas de freio, também. "Sam, o carro anda bem na freeway?"

"Sim, anda. Se você quiser, podemos pegar a freeway."

Fomos. Entrei na freeway e puxei um pouco mais. Não puxou muito, mas andou bem. Testei os comandos dos vidros elétricos, sem problemas. "Sam, você está há muito tempo na Califórnia? Gosta daqui?"

"Sim, é um excelente lugar para criar os filhos, tem muitas oportunidades. Por isso viemos pra cá. E o clima me agrada mais."

Liguei o ar-condicionado. Bem fraquinho. Funcionou. "E como era o clima lá nos Emirados Árabes?"

"Aquilo é quente demais. Sete, oito meses de verão, com temperaturas batendo fácil nos 50°C. Vinte anos atrás, não tinha nada. Mas o país se desenvolveu muito. Dubai virou um grande centro comercial e turístico. É um país islâmico que vive muito bem com as questões ocidentais. Você encontra um shopping center e, do outro lado da rua, uma mesquita. Sem problemas."

Observei os sinais do painel. Todos na devida ordem. "Sam, tem muito brasileiro treinando times nos Emirados Árabes e a seleção nacional. Como está o futebol no Oriente Médio?"

"William, nós amamos o futebol brasileiro. Sócrates, Zico e Falcão são os meus ídolos. Eles foram geniais. Dessa nova geração, gosto mesmo do Ronaldo Fenômeno. Ele sim foi genial quando estava no auge. O Gaúcho é um ator. Só fica na firula, fazendo embaixadas, ganhando dinheiro para o clube e os patrocinadores. Por isso o Brasil não ganhou a última copa do mundo. Muitas estrelas e nenhum time."

O câmbio automático trocou as marchas corretamente. No tempo e na ordem. "Poxa Sam, você acaba conhecendo sobre o Brasil só pelo futebol?"

"Que nada. Outro dia eu estava estudando História com a minha filha. Aprendemos como a cana-de-açúcar foi importante na colonização do Brasil. Foi o grande produto de exploração por quase 2 séculos. Claro, muito às custas da escravatura."

Depois dessa grande demonstração de conhecimentos gerais, retornei. Chegamos ao local de partida e me comportei como um árabe: cordial, mercador e direto ao assunto. "Sam, então, você pediu 2 mil. Pago 1.8 mil agora."

Eu não esperava um sim. Queria me fazer de difícil e ligar só no dia seguinte.

"Okay, William, fechado."

E como um bom árabe, mantive a palavra. Fechei o negócio. Peguei toda a documentação, entreguei o dinheiro e parti de carro novo. Entrei correndo em casa e fui direto pro chuveiro. Debaixo da ducha morna, chorei de medo e de alegria.

sábado, 6 de outubro de 2007

Azuis x Vermelhas

Charles Bukowski tinha as corridas de cavalo aos sábados pela manhã. Era a sua maneira de se livrar de qualquer tédio. Eu não as tenho. E acordei com muita vontade de escrever, mas o texto ficou entalado bem atrás da minha orelha, não conseguiu fluir pelos meus dedos. Tentei, não deu, levantei e fui caminhar no parque. Saí de chinelo, meias e bermuda. O sol tirou o gelo dos meus pés e o céu (mais uma vez) me ofereceu algum conforto.

Uma partida de futebol feminino infantil estava para começar ali no campinho. Ganhei o dia. Antes fui comprar um sanduíche na lanchonete mais próxima, uma brilhante invenção da culinária junkie: dois hamburguers, cheddar, fatias de baicon e creme de abacate. Sim, abacate. Eu comi hamburguer com abacate. Pedi pra viagem, comprei o jornal do dia e voltei ao parque. Me ajeitei na colina mais confortável e me aprontei para o espetáculo.

As meninas de vermelho se aqueciam com bolas cor-de-rosa, prata ou roxa. As de azul tinham bolas azuis mesmo. Papais e mamães na beira do gramado, em cadeiras de praia e bebidas devidamente acomodadas em caixas com gelo. Os bebês rolando pelo gramado. Tudo bem americano. Enquanto as jogadoras faziam alguns movimentos inúteis, criados pelos treinadores nerds, fui engolindo o lanche. Bem gostoso. Peguei o jornal: Bush nega que CIA usa métodos de tortura. Ah, claro, não precisa nem dizer, todos sabemos da eficiência de Guantanamo e Abu Grabi.

Apita o árbitro, começa mais uma partida em Brea, Orange County. O técnico das vermelhas arma o time num esquema nunca visto antes: 3-7. Ou seja, três garotas plantadas na defesa e sete tresloucadas correndo pelo gramado. O time de azul é mais uniforme, tem dez na linha com permissão para subir ao ataque ou recuar para a defesa. Tanto faz, elas decidem. O ponto forte são as duas atacantes, Christie e Evelyn, donas de algum controle de bola. O ponto fraco é a goleira, Marty, que não deve medir mais de 90cm. À distância, parece uma Barbie perdida na grande área.

Nos 10 primeiros minutos, o jogo fica amarrado, feio, a bola não sai do meio de campo. As meninas estão descontroladas. Parece um Corinthians e América de Natal pelo Brasileirão 2007. O técnica das vermelhas só grita "joga pro lado!" - o que não ajuda para o bom andamento do espetáculo. O time azul começa a se entender melhor e passa a distribuir melhor o jogo. Entre uma canelada e outra, a número 10 recebe a bola, corre, corre, chuta em diagonal, dá certo, a número 8 recebe, corre mais um pouco, corre, corre, corre e acaba o gramado. Ela esqueceu de fazer alguma coisa. A goleira do time vermelho, ruiva e com duas maria-chiquinhas, dá um saltinho de alegria. Ele sente que Christie e Evelyn darão trabalho.

Nova saída de bola. A ruivinha dá um chute de 5 metros, o suficiente para a bola sair da grande área. Uma das gordinhas da defesa alcança a pelota, já marcada por uma nuvem de garotas vestidas de azul. Do fumacê, a bola espirra em direção ao meio-campo, onde está uma das 7 atacantes. Ela recebe, joga pro lado, como manda o chefe, e acerta o passe para a japinha. Está armado o contra-ataque. Ela corre, escapa da primeira azulete, da segunda, lindo lance! Alcança a ponta da grande área, a pequena de azul treme as perninhas, ela prepara o chute e... pelo amor dos meus filhinhos! Se o gol fosse na bandeira de escanteio, seria um golaço.

Christie e Evelyn conversam alguma coisa. Devem combinar alguma jogada. O jogo recomeça, com fortes emoções. Especialmente para os pais, que não aguentam mais tanta canelada nas suas crianças. A meio-campista de azul recebe a bola. Olha para o lado e encontra Christie. Christie domina, limpa a primeira, avança pela lateral e cruza na diagonal. Passe perfeito. A torcida elouquece! Evelyn ajeita com a perna esquerda, rola com a direita e chuta no canto. Goooooool!!!!!!!!! Sem chances para a ruivinha! Azuis 1 x Vermelhas 0.

O técnico das vermelhas solta mais alguns gritinhos. Ele já está ficando rouco. Ele pede pra camisa 7, que já tem até seios, recomeçar a partida. A japinha toca e ela dá um bico pra frente. A defesa de azul rebate, mas a sobra é da japinha. Ela agora atua pelo flanco direito e se dá bem. Ela avança, entra na grande área! O gol é imenso para a pequena Marty. A japinha respira fundo, mira e chuta forte! Marty incrivelmente salta como uma pulga e faz uma brilhante defesa! A torcida vibra! O que é um pontinho amarelo vestido de azul na grande área? É a Marty.

Marty vai repor o lance. Oh, não! Suas perninhas dobram diante de uma bola tão pesada e alguma tresloucada de vermelho se aproveita! Gooooooool!!!!!!!!!!!! Azuis 1 x Vermelhas 1.

Christie e Evelyn pegam a bola e levam-na à marca central. Mas o juiz não recomeça o jogo. Pelo contrário, ele pede um minutinho. Marty está ajoelhada na pequena na área, chorando com a cabeça entre as mãos, inconformada por ter levado um gol tão infantil. O técnico vai até lá, conversa com ela. Ela decide sair do jogo. Tira a camisa e corre para o colo da mãe. Tadinha da Marty, ela vai ficar melhor. Alguém ocupa a função de goleira do time azul.

Apita o juiz. Esse são os melhores momentos do primeiro tempo, que acaba empatado.

Deitei na grama, comecei a tirar um cochilo. Fui acordado por gritos da torcida. Abri os olhos, apenas mais uma confusão no meio-campo. Ou seja, retomada a partida!

A de vermelho ganha a bola e perde para a de azul. A de azul erra o chute e perde para a de vermelho. A de vermelho se confunde e perde para a outra de vermelho. A outra de vermelho joga para o lado e perde para a azul. A azul ganha da outra de azul e a bola vai para a lateral. O técnico do time azul anuncia uma substituição e quem volta? Marty! Ela mesma! Volta com a camisa 20, sedenta por vingança. Marty corre para o ataque, ninguém toca pra ela. Ela volta e pega a bola por conta própria e manda para o ataque. O ataque perde a bola e Marty volta para ajudar a zaga. Ela toma a bola da japinha de vermelho e deixa para Christie. Christie divide o lance com a de vermelho-que-já-tem-seios e corre em direção ao gol adversário! Ela entra na área, passa pela primeira zagueira e... penalty! Penalidade máxima! Marty dá 358 saltinhos de alegria! Christie e Evelyn se abraçam!

Evelyn, que fez o primeiro gol, assume a responsabilidade pela cobrança. Ela coloca a bola na marca, dá alguns passos para trás, se concentra, corre, chuta e na traaaaaaaaave!!!!!!!!!! A bola espirra por toda a linha do gol, passa por trás da ruivinha de maria-chiquinhas, as tresloucadas de vermelho avançam para o rebote! Nenhuma delas acerta! Sobra para Christie, que limpa o lace, divide com a zagueira central de vermelho, dá um chute mascado e... defende a ruivinha de maria-chiquinhas! Que partida emocionante!

O jogo ganha cadência. As duas equipes já se estudaram bem e fazem marcação menina a menina. A partida segue truncada, com poucas opções de gol. Marty entra numa dividida e sobe 1.5 metro de altura. Todos esperam a reação da comissão técnica, mas ela mesmo se levanta, tira a franja dos olhos, ajeita o rabo-de-cavalo e parte para outra. No lance de maior perigo, uma das sete tresloucadas ganha a grande área azul e a virada se faz clara. Mas a goleira de azul se atira nos pés da atacante para fazer uma linda defesa. Ela toma uma joelhada na maçã do rosto e o cronômetro é interrompido para a entrada do médico. Um jato d'água na cara e tudo ok.

Está desenhado o empate, senhoras e senhores. Último minuto! A equipe vermelha, mesmo no campo de ataque, joga a bola para a lateral. Cobrança feita pela menina de azul, completamente errada. Sem noção mesmo. O juiz dá reversão. Cobrada a reversão, a tresloucada de vermelho consegue finalmente tocar para a outra tresloucada de vermelho, que corre reto em direção ao gol! Bobeira da zaga azul! A atacante de vermelho avança sozinha com domínio de bola, ajeita e goooooool!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Vira o jogo o time das meninas de vermelho! Para delírio do técnico nerd!

Recomeça o jogo, não dá tempo para mais nada. O juiz encerra a partida. Azuis 1 x Vermelhas 2.

Rabujento desvairio

Fui engolido pelo cotidiano. Além dizer "bom dia", eu perguntei ao motorista do ônibus até que horas ele trabalhou na noite anterior e quanto tempo ainda tinha de rua. Quando chega-se nesse ponto, de ficar amigo do condutor, significa que você está completamente envolvido pelo cotidiano. Eu não tenho mais de levar relógio comigo. Sei se estou atrasado, em tempo ou adiantado dependendo das pessoas que estão no ponto. "Ah, essa menina é das 7h30", "Beleza, esse senhor é o das 7h15, estou com o horário legal".

É preciso apenas não fazer rotina do cotidiano. Caso contrário os personagens começam a desaparecer bem na sua frente. Outro dia uma pessoa tocou a minha nuca com a ponta do dedo indicador no meio da multidão. Só ouvi a mulher baixinha me dizer: "você é um abençoado e Jesus te ama". Olhei para trás e respondi "que bom, amém, eu amo Jesus também". De qualquer forma, era a melhor (ou a única) coisa que poderia dizer. Numa situação dessas, não há como reagir de outra maneira. Eu fiquei de pé. Ela entrou, sentou e ficou me encarando fixamente. Disfarcei. De repente ela começou soltar frases numa língua qualquer. Muito estranho. Fosse aramaico ou a língua dos anjos, nunca saberia. Ela começou a incomodar outras pessoas, a benzer todos ao redor, uma verborragia panfletária religiosa. Ficou nervosa quando três adolescentes mandaram-na calar a boca e se foi. Estranho acontecer a cena porque tive muitos pesadelos de encontros desagradáveis durante a semana inteira.

Poucos entendem, mas confesso que gosto de ônibus e metrô. Trens são geniais. Aqui me sinto bem. É um refúgio que me aglutina na massa. Paradoxalmente há uma certa sensação de liberdade, pois sempre estou em movimento. É isso, o transporte público atua no gerúndio, eu vivo no gerúndio: estou indo, estou voltando, pensando, observando, dormindo, lendo, conversando, lembrando, sonhando, planejando, rindo, chorando.

Meus tênis continuam sujos (muito carvão da churrasqueira flutuando e assentando no piso). A barra da calça, já rasgada de tanto caminhar. Mochila nas costas. Entre o punk e o Working Class Hero do John Lennon. Comprei o Los Angeles Times pra ler. Gosto do Los Angeles Times, sempre com reportagens muito boas, escritas por jornalistas que estiveram lá, sentiram o cheiro, tocaram com as mãos. As manchetes não são óbvias. LA Times dá uma coisa, NY Times dá outra, cada um por si. O mais interessante é que o primeiro caderno abre com as notícias do mundo: a crise em Darfur, a fome na Somália, a covardia contra os monges birmaneses, os governos europeus. Só depois seguem as notícias dos Estados Unidos, das disputas entre Hillary Clinton e Barack Obama à imbecilidade dos fanáticos religiosos do interior de Utah. Aí sim, os editoriais e os artigos de opinião.

Ao contrário dos jornais brasileiros, cada vez mais chatos, sem reportagens e egocêntricos. Te forçam a ler editoriais em primeiro lugar. Então te oferecem textos plastificados. Mal o leitor teve tempo de pensar na sua própria opinião e é obrigado a ler editoriais em forma de estatuto. Isso também explica por que o brasileiro lê pouco. O sujeito chega cedo na banca, todas as capas são iguais, sem criatividade alguma, e certamente vai embora pra não perder tempo com lorotas. É melhor mesmo trabalhar e ganhar o dinheirinho.

Os jornais viraram a Contigo! do Congresso Nacional. Tiras em quadrinhos. Quantas vezes as Mônicas vão dar para os seus Cebolinhas. Folha: "Renan Calheiros blá blá blá". Estadão: "Renan Calheiros nhém nhém nhém". Foda-se!!!!!!!!!!!!!!!!!! Eu quero que o Renan Calheiros vá para a puta que o pariu! Aliás, eu quero mais que o Congresso seja implodido e o Palácio do Planalto dominado pelo Movimento dos Sem-Teto. E que o Movimento dos Sem-Terra levante acampamento nos verdejantes gramados da Granja do Torto.

Humpf...

Deixa eu virar de lado que tem mais sol nesta janela.