domingo, 30 de setembro de 2007

Dois mendigos

Só tive tempo de encostar a cabeça no vidro e fechar os olhos. O cochilo que se desenhava foi interrompido por alguém que vociferava lá no fundo do vagão. Uma voz rouca, gutural, talvez de tanto dizer a mesma coisa, clamando por ajuda e comida. Olhei pra trás por cima do ombro direito. Vestia uma calça jeans clara e um camisa quase no mesmo tom. Pouco sujo. "Mais um", pensei. "Como mais um? Não pode haver 'mais um'!", retruquei-me. Respirei fundo. Lembrei que já o havia visto antes. Outro dia ele tinha ficado nervoso com uma mulher que duvidou que ele era realmente cego e não tinha condições de trabalhar pelo próprio sustento.

Depois de ditar o discurso, veio um silêncio. Imaginei que tivesse partido e consegui concentrar-me nas minhas retinas. Tomei um susto quando ele retomou o texto inteiro bem na minha frente. Dentes tortos, expressão de tristeza. E ofereceu a poderosa voz para a plateia ora atenta, ora indiferente. E cansado de ouvir respostas duvidando de sua cegueira, tomou a atitude mais agressiva e inesperada de todas: com os dedos calejados da mão esquerda, abriu uma das pálpebras e arrancou o olho de vidro que lá se escondia.

Tivesse eu tomado o café da manhã, vomitaria. Desta vez a pressa matinal me salvou. Fez o mesmo com a outra vista. Mas eu estava preparado e desviei o olhar. Alguém colocou em suas mãos um sanduíche. Não sei se por dó, talvez apenas na tentativa de fazê-lo parar com aquilo. Ele agradeceu e caminhou porta afora tão logo elas se abriram. A grande ironia ninguém notou. O faminto desceu bem na Washington Station. Abaixo da placa com o nome do primeiro e reverenciado presidente dos Estados Unidos, farejou seu pão e rasgou a embalagem como se fosse a última refeição da vida.

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Só tive tempo de encostar a cabeça no vidro e fechar os olhos. O cochilo que se desenhava foi interrompido por alguém que vociferava e se esforçava para jogar suas tralhas bem na minha frente. "Sim, existe mais um", pensei. "Sempre haverá mais um", entristeci-me. Na minha frente, outra vez na minha frente. Fim de tarde, por favor, cuide bem do seu discurso, pois desta vez estou com o estômago cheio. A voz também calejada segurou minha atenção. Ele não pediu dinheiro pra comer. Tudo o que ele queria era comprar um violão novo, já que o dele havia sido roubado madrugadas antes. E ele estava triste, pois a música era tudo pra ele. "Cantar é o que me mantém vivo, mas eu preciso do meu violão, por favor". Um nó pesado sufocou minha garganta.

Ele se equilibrou no trem em movimento. Tirou o boné, estendeu o braço diante de todos nós. Baixou a cabeça e, como Joe Cocker, começou a cantar os versos de John Lennon.

"Imagine there's no heaven/It's easy if you try/No hell below us/Above us only sky", e os meus olhos ficaram arregalados.

"Imagine there's no countries/It isn't hard to do/Nothing to kill or die for/And no religion too" me fizeram encolher.

"Imagine all the people/Living life in peace/You may say, I'm a dreamer/But I'm not the only one" soaram-me como um tapa na cara.

"Imagine no possessions/I wonder if you can/No need for greed or hunger/A brotherhood of man" acertaram-me a outra face.

"Imagine all the people sharing all the world" invadiram-me a alma e jogaram-na contra a parede.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

O branco e o tombo

Quando as luzes se apagaram e abriram-se as cortinas, não havia palco algum. Apenas uma parede imensa e branca que deixou a platéia silenciosa. No muro antes escondido, o show de rock começou a ser exibido por um retroprojetor. Eu não entendi nada. Fiquei desconcertado. Mas a multidão de idosos – todos de branco, confortavelmente sentados em mesas brancas com toalhas brancas – prestaram muita atenção. Sempre em silêncio.

Saí pela porta principal e fui tirar satisfações com o bilheteiro. "Paguei pra ver um show em retroprojetor?" O bilheteiro, na verdade, uma mulher, me recebeu numa mesa dessas de plástico. Disse que não poderia fazer nada por mim. Eu insisti, mas ela deu de ombros. Resolvi ir embora.

Cruzei todo o estacionamento (não lembro de ter visto carros) e olhei para trás. Só então percebi que a casa parecia uma grande igreja, um enorme salão. Todo branco.

Ao pisar do lado de fora dos portões, vi uma rua que subia para lugar algum. Tinha o asfalto desgastado, empoeirado, pedras soltas. Cruzei a via para o lado de lá. Alguns carros passaram por mim: me recordo de um Ford 1917 e de um corvette novinho em folha, conversível, guiado por uma mulher lindíssima.

Fazia sol. O céu estava limpo. Olhei o vazio da rua. De repente, dois garotos apareceram de bicicleta, descendo a toda velocidade. Do primeiro não guardei o rosto. Mas o segundo... esse me parecia familiar. E foi justo ele quem não aguentou o tranco da via esburacada e levou um belo tombo. Capotou, passou por cima da bicicleta. Caiu dentro de uma boca-de-lobo aberta exatamente aos meus pés. Ele sentia dores, deu impressão que seria levado pelo esgoto. Mas eu estava lá e agarrei sua mão direita. No primeiro momento, não consegui resgatá-lo. Gritei por ajuda e ninguém veio. Num suspiro de muita força, no entanto, puxei-o para a calçada.

Ele estava ferido, mas também suas chagas não ficaram gravadas na minha mente. Pedi socorro outra vez: nada. Peguei-o no colo com os dois braços. Outros carros passaram por mim: ninguém parou. Mais um suspiro de força e subi toda a rua, acompanhado do outro garoto. Ao chegar lá em cima, encontrei uma passagem de acesso à avenida principal. Olhei para a via movimentada e não sabia o que fazer. Não tinha idéia de quem seriam os pais daquela criança. Nem telefones, nem contatos. Absolutamente nada. E a outra criança não abria a boca. Percebi então que eu teria de cuidar sozinho dos dois, de alguma forma.

Depois disso, eu não dormi mais.

domingo, 23 de setembro de 2007

Give peace a chance...

Ron, Tim e Jim empunhavam bandeiras contra a guerra do Iraque numa movimentada esquina de Los Angeles. Senhores de barbas grisalhas, dedicando seu tempo na frente de batalha da conscientizacao. Ron estava acompanhado de seu filho adolescente, Dan. Dan pendurou em seu pescoco um cartaz com os dizeres IMPEACH BUSH. Ron segurava a placa STOP THAT COWBOY. Tim veio de MAKE PEACE, NOT WAR. Jim apostou nas palavras TROOPS HOME NOW!.

Eles tambem penduraram no poste faixas mostrando que civis iraquianos e afegaos estao sendo mortos aos milhares. Mais uma tentativa de expor a imbecilidade humana. "Matar uma pessoa e' assassinato. Matar milhares e' politica externa", irozinava o texto.

Foi quando o farol de pedestres abriu para mim e eu segui na direcao deles. Mas nao completei meu caminho. Larguei o jornal e meu suco de frutas debaixo de um arbusto. Simplesmente parei e "oi, posso me juntar a voces?". Quatro olhares supresos me investigaram ao mesmo tempo. O susto passou em tres segundos. "Brilhante! Claro! Escolha uma dessas placas", disse Jim.

"Oi, eu sou Jim, este e' Tim, este e' Ron e este garoto aqui e' o Dan. Muito prazer te-lo aqui com a gente"
"Oi, eu sou Guilherme, do Brasil, estou feliz por estar aqui com voces", e peguei a minha placa.

E tudo o que fiz foi ergue-la com o punho direito. E la' ficamos os cinco, direcionando nossas mensagens para todas as vias do cruzamento. Nao ficamos um minuto sequer sem a resposta do transito angeleno. Buzinas passavam desordenadas, como se comemorassem com a gente a conquista de um campeonato. Idosos discretamente abaixavam os vidros escurecidos dos seus carros para que vissemos os seus sinais de aprovacao. Jovens casais passavam gritando em nosso apoio. Ouvimos gritos de "e' isso ai'!" aos raivosos "kill that mutherfucker!!!". Motoristas de onibus passavam devagar buzinando, acenando, permitindo que os passageiros nos observassem e lessem as placas com atencao. Todos queriam nos mostrar a satisfacao da atitude.

Pedestres nao deixaram por menos. Passavam bem ao nosso lado batendo palmas. "Eu apoio voces!". Queriam tambem estar ali. Alguns cruzavam a esquina para simplesmente dizer alguma coisa em nosso favor.

Entre um "yeaahhh!" e outro "guys, you're great!", Jim e eu falamos de politica. Concordamos o quanto e' burra e mentirosa a invasao do Iraque. Tudo nao passa de petroleo e dinheiro. Quao penoso e' ver mulheres chorando seus mortos, criancas feridas na alma pelas bombas idiotas. Lembramos da farsa que foi a reeleicao de Bush. Discutimos sobre os sistemas da eleicao norte-americana: nao se vota diretamente no presidente, e' preciso votar num colegio eleitoral de funcionamento complexo que, ai' sim, dara' poderes a um so' homem. Jim gostaria de ver em seu pais um processo como o brasileiro, onde o eleitor escolhe diretamente os seus governantes. Jim perguntou de Lula. Conversamos da corrupcao, da ma' distribuicao de renda, dos problemas resultantes de um congresso nacional inchado.

Distribuimos panfletos. 1 milhao de iraquianos foram mortos. A administracao Bush ja gastou US$ 450 bilhoes em quatro anos e meio de guerra. Dos impostos pagos pelos contribuintes californianos, US$ 60 bilhoes financiam a guerra. Em contradicao, o Departamento de Saude Publica do Condado de Los Angeles tem orcamento menor que US$ 3 bilhoes.

Quando o sol caiu, baixamos a guarda. Nos abracamos e tomei meu rumo. Ah, a minha placa? Dizia: A GUERRA CUSTA BILHOES. A PAZ NAO CUSTA NADA.

sábado, 22 de setembro de 2007

As rugas

A simpatica velhinha subiu no onibus com tanta dificuldade... Nada que as rugas pudessem esconder uma alegria de viver: peruca, boca bem contornada de batons vermelhos, brincos, bolsa. Um agasalho cor de rosa e calcados que nao notei. Muito diferente da outra que estava no ponto e, lacrimejando, lamentou-se comigo das dores nas ancas. Enfim, subiu e acomodou-se no lugar respeitosamente deixado por uma jovem. Sorriu, talvez tenha rido de si mesma, olhou para os lados, para as outras pessoas ao redor, por um segundo me olhou diretamente nos olhos.

E aquele instante congelou. De onde voce veio, minha senhora? Qual ventre te pariu? Ha' uma curiosidade em mim o tempo todo. Minha predilecao pelas minorias fazem-me questionar integralmente a origem das pessoas. A contagem regressiva da vida que nos direciona para alguma interseccao no tempo-espaco. E' engracado porque estamos sempre vindo de algum lugar. Nao me refiro ao divino, digo das ruas, das estradas, das maes e dos pais. Eu ocupo o mesmo metro quadrado que o sem-teto: alguem deve te-lo amamentado, criado-o, alimentado-o, jogado-o no asfalto algum dia. E no entanto eu vim de tao longe para ouvir dele um pedido de ajuda, um prato de comida, centavos, se possivel. Onde ele nasceu?

Uma mulher robusta cruzou meu caminho por essas esquinas. Ela fedia urina. Olhei pra tras e vi as manchas em sua calca. Tal qual nas ruas paulistanas. Quais estradas conduziram-na ate aqui? O que ela fez de errado para merecer tao poucas e sujas roupas? Quais magoas levaram-na `a beira da loucura? Quais rasteiras derrubaram-na? E quais alegrias ja' viveu? De quantos amores desfrutou? Tudo isso eu sei de mim. E novamente olhares que brevemente se cruzam por cima dos ombros querem ouvir as respostas. Ha' um grito surdo/mudo de "hei, me responda!". Mas nos calamos. Armazenamos tudo na consciencia. Deixamos para outro dia ou esquecemos ali.

Ha quem queira compartilhar. Ele chegou com dificuldades a mim. Passos curtos, buscando apoio do chao. Um bone' protegendo as vistas do sol e as lentes insuficientes para evitar as vistas cerradas. Por isso se aproximou ainda mais. Queria apenas mostrar com orgulho sua companheira sentada numa cadeira de rodas. "Oi, essa e' a minha namorada. Eu a amo ha' 69 anos e, desde aquele dia, vivemos juntos. E vou continuar amando." Ela simplesmente ergueu a cabeca em minha direcao, bem devagar, para me oferecer um sorriso. Depois foram embora.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

12 horas

(10h00)
Bom dia, pessoal. Todos bem? Ah, sim, legal. Estou bem tambem. Vamos la para mais um dia. Mais um dia ou menos um dia? Boa pergunta, te respondo mais tarde.


Arrumar os copos, limpar o caixa, abrir o caixa, colocar dinheiro na gaveta. Me deixa ver... agua, falta agua. Vou la buscar entao. O que mais? Guardanapos ok, talheres pra viagem ok. Okay.


(10h22)
Hum, que vontade de um cafe expresso puro. Vou la comprar. `E rapido.


(10h38)
Ai ai... here we go again. La la la la...


Caramba, meu tenis ta bem sujinho.


Eita, acho que as minhas costas vao doer hoje.


"Se meus joeeeelhos nao, doessem maaaaais..."


(11hoo)
Cozinha, tudo pronto? Churras, tudo certo? Entao vamos abrir o restaurante. Bom trabalho a todos.


Tomara que as gorjetas de hoje sejam boas. Queria muito pegar um showzinho semana que vem. Vai dar, certeza.


Um gole d`agua.


(11h33)
Que catso, ninguem vem comer hoje?


Ai, meu calcanhar ta doendo. Vou dar uma alongadinha. Movimentar os calcanhares.


Nossa, eu dormiria um pouco mais hoje sabia?


Cacete, ate que enfim alguem com fome! Hi sir, may I help you? Como funciona comida por quilo? Assim: voce pega o seu prato, escolhe a sua salada, o seu prato quente bem ali, o churrasco, quanto quiser e eu peso aqui, conforme esta tabela. Sim, pode comer so salada. Claro, pode comer so carne tambem. Com certeza, pode misturar tudo.


Ah, ai' esta o senhor. Vai pagar para os quatro? Sem problemas. (..."nao vou dar desconto nem fodendo, vai pagar a conta inteira"...). Okay, aqui esta' o seu troco. Obrigado e tenha um bom dia.

Nossa! 14 dolares de gorjeta! O cara paga a conta inteira e ainda deixa 14 dolares de gorjeta! O veio ta' bem hein.


Fala chefe, tudo bem? Sim. Estou ouvindo. Ja' encomendou? Certo. Qual o numero do cartao? Sim. Ta. Certinho. Legal. Bacana. Maravilha. 171 dolares? Nossa, ela vai dar uma festa? A-ha-ha. Vou imprimir o recibo e te mando. Fechado. Ate. Como? Deixou 20 dolares? E' hoje. Abraco.


"Se meus joeeeelhos nao, doessem maaaaais..."


(12h29)
O movimento ta mezzo-mezzo hein? Pois e'.


Ola, como funciona? Assim: pega o seu prato, escolhe a sua salada, o seu prato quente, o churrasco e eu peso aqui seguindo esta tabela. De nada.


Porra, americano tem problema com comida por quilo? Aposto que se tivesse Combo1, Combo2 e Combo3 eles nem queriam saber o preco.


Preciso me esticar um pouco. Ai meus calcanhares. Deixa eu arrumar uma caixa pra apoiar os pes. Por que nao me dao um banquinho hein?


(12h58)
Que lustre bonito, nao tinha reparado. Deve ter sido bem carinho.


Ah, como e' bom trabalhar do lado de uma academia. Sim, claro que vi. Olha la, agora ela esta voltando.


(13h23)
"Se meus joeeeelhos nao, doessem maaaaais..."


Que dia fraquinho...


Boa tarde. Assim: voce pega o seu prato (..."e enfia no cu"...), escolhe a sua salada, o prato quente, o churrasco (..."quer ver a minha picanha?"...) e eu peso aqui conforme esta tabela de precos. Pois nao, nao ha de que.


Se o Sao Paulo ganhar do Cruzeiro, ja e' campeao.


Ola. O seu prato, por favor. Aqui esta. Obrigado e tenha um bom dia.


(13h59)
(..."puta que pariu, nao aguento mais explicar essa merda"...) Assim: voce pega o seu prato...


Que nome estranho. Agora era so o que me faltava: ficar lendo nome das pessoas pelo recibo do cartao. Nao deixa de ser um bom passatempo. Esse e' russo. Italiano, facil. Mexicano. Latino da America latina. Essa 'e... nao sei. Coreana. Tailandeses. Orientais, certeza, de algum lugar do oriente. Ha-ha, quanta besteira...


Boa tarde, senhor (..."que cara de arabe"...). Sua conta deu... 9.11!!! Nossa, que conta perigosa hein? O que? O seu nome e' Mohammed???? Nao acredito! Qua Qua Qua Qua!!! Nao pode ser! Que coisa nao? Inacreditavel. 9.11 - Mohammed. Boa refeicao, Mohammed. (..."e nao coloca muita pimenta pra nao explodir o estomago"...)


(14h41)
Putz, chega 18h00 mas nao chega meia-noite.


"Se meus joeeeelhos nao, doessem maaaaais..."


Vou fazer minha hora de almoco. Ligar pros filhos, tomar um cafe. Ei, quem fica aqui no meu lugar? Voce? Entao vem. Valeu.

Que solzinho bom.

(15h40)
Voltei. Deixa comigo.


Boa tarde, senhor (..."a sua mulher e' uma baranga hein?"...). Tudo bem, obrigado. O seu troco.


Ola. Aqui vai. O seu troco.


Oi. O seu prato. Aqui... obrigado, ate mais


(..."mas que catso que resolveram todos comer de uma vez uma hora dessas?"...)


Hi! Tudo bem, sir? O seu prato, sir. Aqui o valor, sir. O seu troco, sir. (..." vai se foder, sir"...)


Acho que vou ver um filminho amanha.

E o que tem de bom no cinema? Ah sim, The Brave One. Jodie Foster deve estar demais.

(16h18)
Que calmaria. Vou me esticar de novo. Ai.


Conta uma piada, vai. Caralho, que piada horrivel.


La la la la...


"Se meus joeeeelhos nao, doessem maaaaais..."


(17h30)
Ah, se continuar o movimento fraco, vamos todos sair mais cedo. Duvido. Ei, enche essa garrafa de 'agua, por favor. Tem cafe? Eu quero.


Arctic Monkeys toca na terca no Hollywood Palladium. Sim, pretendo ir. Perdi Donita Sparks no Viper Room.


"Se meus joeeeelhos nao, doessem maaaaais..."


(18h00)
Como funciona? (..."voces estao de palhacada ou o que? pega esse prato e quebra na cabeca desse seu namorado pangare"...) Pega o prato, a comida e eu peso aqui.


E' por peso.


Vou ler Bob Dylan. 15 dolares um livro de cronicas do Bob Dylan! Onde ja se viu uma coisa dessas? Genial.


"Se meus joeeeelhos nao, doessem maaaaais..."


Dois pudins, por favor!!!


(19h30)
Galera, olha o que e' de gente la fora! Caramba, umas 20 pessoas. Fodeu.


Ola, obrigado. O troco. Ate. Oi tudo bem? Sim, temos. Ali. Por nada. Nao, so de chocolate. Isso e' bombom. Do Brasil. Guarana'. Bom. De nada. O peso. Sim, por peso. Embalagem pra viagem ali. Por peso. Pega o seu prato ali. Obrigado. O troco. Tenha uma boa noite. Nao quer carne hoje? Okay. Obrigado. Boa noite. Sem bebidas? Soda? Tem. Nao, isso e' cerveja. Brasileira. Boa. Tchau. Oi, voce de novo? Legal. Boa refeicao. E', ficou movimentado de repente. Entao ta. Oi. O prato esta ali. Senhor, tudo aqui e' por peso (..."o proximo filho da puta que me perguntar eu quebro o nariz com esse espeto"...). Ola', obrigado. O seu sorriso e' mais bonito. Sim. 'Agua? Aqui vai. Acabou o creme de papaya. Oh, me desculpe. Troco errado? Deixa eu ver. Tem razao. Desculpe. Boa refeicao. Ta pagando pra quem? Pros cinco? Sem problemas. Daniela Escobar? To vendo. Vem sempre aqui? Que linda. Que marido ridiculo. Ola. O seu troco. Isso e' alcatra. Nao, nao tem coracao de galinha. Nao, nao tem maminha. Tem essas opcoes, ta vendo? Senhora, ja cobrei, pode ir procurar um lugar pra sentar por favor, de modo que a fila ande. Ah, nao vou atender o telefone. Um minuto, por favor. Alo? Mesa pra 11? Pode vir. Ja' ta' chegando? Bom, estamos aqui. Comida por quilo. (..."e'e'e'e' porra!!! nunca ouviu falar de comida self-service????!!!!)


(20h30)
Ate que enfim uma folga. Que rush foi esse? Meus calcanhares!!!

Olha que belo carro. Humpf, vou ter de comprar um toyotinha.

Meu Deus, me permita tomar 15 litros de cerveja daqui a cinco minutos!

(20h35)
Deus? Voce esta ai'? Cade os 15 litros de cerveja? Claro que acredito em voce! Ora, vai regular? Poxa, rezo todas as noites e todas as manhas, alem de ter sido um bom menino. Okay, eu conto ate 3 e depois 15 litros de cerveja vao aparecer bem na minha frente. 1! 2! 3! ... Entendi, Deus. Voce esta ai', mas nao vai me permitir tomar 15 litros de cerveja agora. Eu sei, ainda tenho clientes pra atender. E' verdade, voce tem razao. Obrigado mesmo assim, Deus. A gente se fala.

(21hoo)
"Se meus joeeeelhos nao, doessem maaaaais..."

Minha folga e' no sabado? Legaaal.

Preciso ver o mar. Preciso que alguem durma comigo hoje. Nao, nao quero casar, que mania! Tudo precisa casar? Mas seria legal ter alguem na guest house me esperando. Um cafune e' bacana ne? Ta, um abraco sincero vai. Nao, abraco nao. Alguem pra dividir a cama mesmo.

(21h31)
"Se meus joeeeelhos nao, doessem maaaaais..."

Nao vem mais cliente. Certeza. Vou dividir a gorjeta do dia. Ah, nao vou esperar fechar, nao vem mais ninguem mesmo.

(21h52)
Chefia, ja deu ne'? Vou fechar o caixa e cuidar da grana.

Caramba, esse dono ta' enchendo o rabo de dinheiro. Essa bolada por dia?

(22h00)
Chega! Valeu galera beijo a todos! Peace out!

Ai, meus calcanhares.

Alguem me da uma carona?

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Diga-me o que comes

Um homem de cabelos curtos, bem aparados, risca lateral retinha, entrou sereno. Cara de imigrante italiano, nacionalidade que me deixou confirmar minutos mais tarde pelo cartao de credito. Observou bem as opcoes do buffet, caminhou para as saladas, encarou atentamente as carnes do churrasco. Perguntou sobre picanhas, alcatras e frangos. Depois pegou seu prato, tomou um lugar na fila e de repente aparece na minha frente com uma refeicao de milho (!). Exatamente, o cara deve ter comido uns 350g de milho em conserva (aceitou uma fatiazinha de carne para nao passar ridiculo). Quem `e o tipo de pessoa que almoca milho? Sera que a comida reflete a personalidade do sujeito? Diga-me o que comes e te direi que `es. Dia seguinte ele voltou. E no outro tambem. De agora em diante existe no planeta Terra um ser humano que entra numa churrascaria pra comer milho. O que pensa da vida uma pessoa que come 0.50g de carne e 350g de milho ???!!! Ao menos posso imaginar que sua cor preferida `e o amarelo.


Uma coisa `e certa. Realmente ha uma relacao entre sexo e carne. `E serio. Gente um pouco mais sensual, "extrovertida", comunicativa, ou sacana mesmo, gosta de carne mal-passada. Sao esses que lambem os beicos, que ficam naqueles interminaveis sussurros "hummm" "ahhh" "wow" "oh my god" "that's it baby" enquanto os churrasqueiros cortam as carnes para o seu deleite. Quem gosta de carne bem-passada nao vai alem do "okay, I like that". Direto ao ponto, sem firulas. Talvez eu esteja profundamente enganado, mas acho que esses sao os mais certinhos, comportados, preferem mater a discricao.


Carne mal-passada sai molhada do espeto. Deixa rastro por onde passa. `E preciso se lambusar sem vergonha. Deixa claro que voce vai ficar babando. Ele/ela sai sempre comentando de como o seu file' `e o melhor, com risadinhas que dao a trilha sonora do filme. E os gestos e as interpretacoes e as mimicas realcam a preferencia. Um senhor de Nashville cara-de-cowboy nao teve o menor pudor ao escolher a sua carne. "Senhor, como prefere a sua carne?" "Meu amigo, Nashville `e como os pampas do Brasil! Eu gosto da carne que faz muuuuuuuu".


Carne que faz muuuuuuuu? Sim, ele gosta de muito mal-passada. Sangrando. Sua vaca, eu te matei e eu te como do jeito que quiser. Vaca `e pra isso mesmo: passou na janela, leva ferro.


Os timidos evitam a carne. Estao loucos para come-las. Observam-nas com gosto e apreco. Mas recusam-nas, ficam apenas nos pedacos de frango, acompanhados de vagem, folhas de alface, legumes, arroz branco, tudo muito sereno e tranquilo... Ele: "Amor, nao quer uma fatia de alguma coisa?" Ela: "Hihihi, acho melhor nao. O que voce acha? Ah, nao sei. Vou comer isso aqui mesmo". Sera correto o meu raciocinio?

Uma loira alta, nordica, passos largos e firmes, tipo eu-sou-mais-eu, chegou com decisao. Foi la na frente da fila. Me encarou:
"Essa carne `e temperada?"
"Nao, apenas leva sal grosso"
"Entao, `e temperada"
"Nao, apenas sal grosso para dar o sabor correto"
"Humpf, e o que `e esse oleo que o churrasqueiro passa na carne antes de leva-la `a churrasqueira?"
"Um oleo para nao deixar a carne ressecar"
"E esse oleo `e de que?"
"Oleo de oliva"
"Viu, a carne `e temperada com oleo de oliva. Nao quero, obrigada."
"..."

Que raiva de oleo de oliva `e essa, amorzinho? O que o tempero te fez, meu bem? Aqui com minhas moedas: o tempero `e sinonimo de carater? Pimentas definem linhas de conduta? Mostardas dao pistas de gosto musical? Azeitonas, que indicam? Alho traduz o que? Salsinha, tao discreta, porem tao marcante, sao os misteriosos que te saboreiam?

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Guest house em West LA

Consegui uma guest house em West LA por duas semanas. Guest house, um espaco anexo `a casa principal, onde o anfitriao pode oferecer privacidade e conforto ao convidado. O anfitriao, neste caso, o dono do restaurante onde trabalho. Acho que ele foi com a minha cara.

Primeira noite, puro reconhecimento de terreno. Uma casinha retangular, mais ou menos 10 x 30 metros. Entra-se pela pequena cozinha, devidamente equipada com geladeira, fogao, microondas, armarios. Ataquei um iogurte de morango para continuar a inspecao. Como toda casa americana, integrada com os demais ambientes. Uma sala agradavel, sofa para tres pessoas, mesa de centro, televisao. Piso de madeira, moveis rusticos. Tudo muito silencioso, podia ouvir meus passos, minha respiracao, os grilos la fora. Uma cristaleira forrada com fitas de video do mais variado cardapio: Independence Day, O Patriota, O Exterminado do Futuro, Tomates Verdes Fritos, cinema italiano, desenhos animados. Ate um filme interessante que nao conhecia, Welcome do Sarajevo, sobre jornalistas cobrindo a guerra na Bosnia, que deixarei para outro dia. Estava um pouco cansado pelo dia de toma-la-da-ca de notas e moedas, certamente nao teria tempo suficiente para assisti-los. TV, quem sabe.

Sentei na poltrona, tirei o par de tenis, estiquei as pernas na mesinha de centro, onde dois controles remotos me aguardavam. Logo pensei, humm, dois controles vao me complicar a vida. Evidentemente nao consegui fazer a programacao a cabo surgir na tela da televisao. A tecnologia tem dessas coisas, dificultam a humanidade. O cara inventa um aparelho fantastico, mas os moderninhos metem o bedelho. Seria tao simples um liga ou desliga, com canais para cima ou para baixo, e volume. Simples assim, pronto e acabou. Nao `e preciso mais nada para o bom caminhar do entretenimento. Mas, nao: exigem de mim o botao A, pressionado com o B, somado ao comando Seta Direita, desde que a trava de apontada para o lado X. Nunca fui bom de videogame mesmo. Desisti e fiquei olhando a tela azul por alguns segundos... Okay, agora uma boa ducha.

Entrei no banheiro e pisei num cocozinho seco de cachorro, tipo pincher. Hahaha, quanta ironia. Justo naquela mansao. Vai ver a filha do dono deixou o cao passar por la. Recolhi as fezes secas com tranquilidade, pois ali havia uma banheira branca para o meu usufruto. Limpa, daquelas antigas, cercada de cortinas dupla-folha `a Alfred Hitchcok. Agua fria, agua quente, mantive na temperatura exata. Xampu da Victoria`s Secret, sim, um luxo. Pensei traquinamente: por que nao lavar tambem as minhas partes com Victoria`s Secret? Muito legal, diversao garantida.

Nu em meus aposentos, segui para a cama de casal, separada da sala apenas por um biombo vazado, bastante charmoso. Edredon macio, travesseiros sensiveis, pequenas almofadas decoradas para o total conforto do imperador. Me joguei, levei cinco minutos para encontrar a melhor posicao e, quando consegui, vi a porta do banheiro entreaberta. Imediatamente lembrei de Hitchcok e levantei para tranca-lo la dentro. Nao da pra dormir olhando um porta entreaberta. Alguem sempre sai de uma porta entreaberta. Bom, aproveitei para tomar um gole d`agua e colocar uma cueca.

Peguei alguns dos meus CDs, voltei pra cama, apaguei as luzes, liguei o abajur ao meu lado, gastei outros cinco minutos para ajeitar a perna esquerda, a direita, o tronco e a cabeca. No criado-mudo, um pequeno sound-system portatil... com as horas desreguladas. Eu de novo contra a tecnologia. Analisei bem, me fiz de engenheiro eletronico, cerrei as sombrancelhas e fui apertando os botoes. Parece facil, mas nao `e. Muito bem! Horas corretas, despertador ajustado. Que tal uma musiquinha pra relaxar e dormir? Na duvida, escolhi Beatles pra me embalar com With a Little Help from my Friends. O open eu encontrei rapidamente. Coloquei o CD. Play tambem estava la no devido lugar. Pressionei e... nada. Nao tocou. Claro que nao deve ser so um play, tem de ser um play apontado para a conjuncao de Saturno com Urano. E eu com aquela caixinha futurista nas maos emitindo energias mentais "funciona...", "funciona...", "funciona...".

Ai ai, calma. Mesmo que num box moderno, o radio `e centenario e nao te abandona nunca. Rodei as estacoes ate ouvir os acordes de Since I've been Loving You, do Led Zeppelin. Suspirei fundo, embarquei na segunda estrofe. Tenham todos uma boa noite.

domingo, 9 de setembro de 2007

Não dormi em casa

Não dormi em casa. O rock n' roll falou mais forte. Eu tinha de ver Kings Of Leon no Greek Theatre, uma dos lugares mais bacanas de Los Angeles, um teatro de arena ao ar livre, fincado no meio das árvores do Griffith Park. Mas não tenho carro e não tinha como voltar até Orange County. Sem problemas, joguei nas mãos da Providência. Eu não perderia o show, ponto final. Aliás, talvez eu tenha de parar com essa mania, pois o débito deve estar bem alto.

Kings é uma das bandas mais legais da atualidade. Verdadeira. Sem firulas. Feeling, saca? Embarquei nessa verdade até conhecer, por acaso, um cara que trabalha como barman no... Greek Theatre! Ah Providência, o que você está fazendo comigo? Por que tantas oportunidades? Estou usufruindo do saldo ou acumulando dívida pra pagar depois? Qual é a minha, afinal? Ok, mais tarde Você me responde. "Meu chapa, posso dormir na sua casa hoje? Amanhã eu vou embora". "Porra, brother, demorou. E ainda te arrumo umas cervejas de graça".

Feito. Cheguei cedo ao local, o que me permitiu ainda caminhar pelos bosques do Griffith, alcançar o observatório (outro?) astronômico, ver toda a cidade lá de cima do parque, o letreiro de Hollywood a poucos braços de distância, ver o sol cair, me questionar e esquecer das questões, viver, respirar, estar ali. O silêncio. Pura e simplesmente. Aquelas coisas. Tomei um balde de café e voltei.

O Greek tem um clima singular. E eu já comecei o show no clima. A primeira cerveja saiu do meu bolso, mas o outro litro e meio ficou por conta da casa. Charmer me fez arrepiar. Slow Night So Long me levou às preces. The Bucket e Soft encheram meus olhos de lágrimas. Milk e Arizona colocaram-me em outro lugar. Só faltou Joe's Head pra quebrar as minhas pernas. Agradeci tanto que a Providência me deu mais de lambuja (?).

- "Oi, você tem um isqueiro?", soprou aquela voz feminina no pé do ouvido. Era uma das três loiras que "resolveram" parar ao meu lado.
- "Não, mas se você tiver um cigarro, eu aceito"
- "O cigarro que você imagina eu não tenho, mas tenho esse outro pra você e nós três aqui"
- "Então eu te arrumo um isqueiro agora!"

Oh Providência! A que te devo? Quem será que sou eu? Até onde vai a minha lista de oportunidades? Tudo bem, não quero saber. Me responda beeeem mais tarde, por favor, se não for pedir muito. E ali ficamos, eu e elas, ao som de Kings por toda a noite.

Dia seguinte eu acordei, o brother foi trabalhar e eu saí andando pelas ruas de LA até alguma idéia surgir na cabeça. Um café expresso e um bolo de banana com nozes na cafeteria mais próxima. Biblioteca Central de Los Angeles! Claro! É tudo o que eu preciso! Um bom livro, um mundo de letras, textos, capas, texturas e silêncios desconcertantes. Não, desta vez não me refugiei em Charles Bukowski. Corri direto para Literatura Estrangeira, louco para encontrar Garcí de Montalvo e as aventuras de seu Amadís de Gaula, cavaleiro de marca maior, herói, conquistador, guerreiro, livre, rei. Viajante dos bons.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Cocô de cachorro

Mais de 60 mil pessoas ficaram horas sem energia elétrica e tiveram problemas com comida estragada, além de ficar sem ar-condicionado numa tarde de 40 graus. Moradores da região de Harbor estão bastante preocupados porque o Hospital Martin Luther King Jr. será fechado e eles não terão opção de saúde pública. Quatro jovens foram mortos a tiros em plena Beverly Boulevard: briga de gangues rivais. Notícias comuns de uma grande metrópole, ainda estranhas num país de primeiro mundo. Mas uma coisa é certa: não tem cocô de cachorro na rua! Dê ao paulistano qualquer nota de violência, duvido que ele entenderá uma calçada sem cocô de cachorro.

Você pode andar horas num ônibus lotado. Certamente não corre o menor risco de pisar num cocô de cachorro quando saltar no ponto. É um alívio, caminhar em direção ao lar-doce-lar com brisa à face, cabeça erguida, nariz empinado. Não há chance de pisar em cocô de cachorro. Você pode chegar de carro em casa e não haverá um grande e roliço cocô de cachorro te esperando no portão. O que te dá uma incrível sensação de prazer e dever cumprido por mais um dia de trabalho. Você tem a singular oportunidade de chegar da balada, cair na cama morto de cansaço e nunca vai descobrir aquele borrão de cocô de cachorro no tapete da sala.

Aliás, não tem vira-lata na rua. E raramente se vê cidadão passeando com o melhor amigo pelo quarteirão. Quando o faz, recolhe o cocô de cachorro devidamente. Eu odeio cocô de cachorro. As famílias brincam nas praças públicas sem se preocupar com cocô de cachorro. Os pais podem deitar e rolar no gramado sem chafurdar num cocô de cachorro.

Vizinhos não brigam por cocô de cachorro. Podem brigar por qualquer outra coisa. Mas por cocô de cachorro, não. Não há poodle que te atormente. Me desculpem, mas cocô de cachorro é uma merda!

Coisas indescritíveis

Quatro gaivotas pousaram bem no mar raso, ali onde a onda já quebrou e a água só escorre sobre a areia. Procuravam peixinhos para a refeição. Foi o sinal para que um grupo de meninos corresse em direção ao mar, com suas ferramentas, felizes, às gargalhadas, para tentar pescar alguma coisa também.

Bom, na verdade, eu queria mesmo era falar sobre o pôr-do-sol no Pacífico. Mas me falta uma nova tábua de vocábulos para descrever um céu azul pleno e constante, daqueles que a gente desenha no jardim de infância. E aí tudo o que te resta é ficar pensando no intraduzível, conversando consigo mesmo: "ei filho, veja como isso é maravilhoso, você precisa ver isso, vem aqui comigo por favor, as pessoas precisam de paz, é só o que elas precisam". Havia um sol de circunferência exata, a dois palmos de altura do horizonte (eu medi), amarelo-dourado-alaranjado. Mas eu não sei colocar em texto o conforto daquele calor batendo na testa. E tudo o que te resta é fechar os olhos e meditar, silenciosamente, na tentativa de ver o mundo ao seu redor sem abrir as pálpebras.

Vi casais namorando à beira-mar. Vi um pai e a filhinha, calados, na borda do píer, olhando pescadores solitários. Eu poderia sim descrever cada um deles por inteiro, mas agora eu não sou capaz de explicar o significado de qualquer sensação de serenidade daquela paisagem. Vi dois artistas de rua sapateando com maestria na calçada da praia, mas, que coisa, eu não sei contar a alegria de vê-los dançar com tanta graça e liberdade. Caminhei por uma feira-livre a poucos metros da praia, com gente feliz conversando, comprando bugigangas e outras tranqueiras, jovens tocando violão, idosos de mãos dadas. E eu na minha passarela transitei desapercebido, sozinho. E vi que a estrada não tinha fim.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Página em branco

Todo êxtase é periodicamente acompanhado de uma bandeira. E essa bandeira te lembra que é preciso ir mais devagar, colocar os pés no chão, viver sem esquecer da estrada que ficou pra trás nem do solo que você pisa nesse determinado momento, ou simplesmente te dá o conforto de que a obrigação foi e está sendo cumprida. A realização segue paralela à tristeza do mais próximo mais próximo mais próximo mais próximo mais próximo. E o contrário também. A vida tem só um peso e só uma medida. Tem sempre alguém que segura a nossa onda, para que o mar não nos engula. O oxigênio que nos sobra serve para segurar a onda do outro, e vê-lo surfar. É assim que as pessoas se resgatam. A morte, por exemplo, carrega em si o ponto final, mas também vira a página em branco apontando para a eternidade. Da eternidade, só quem virou a página pode entender. Então aqui eu me calo.

O fato é que a página virada por alguém me faz lembrar o quanto sou grato a todos que me serviram um prato de comida. Penso até em quem não sei se resignou por mim. Sou profundamente agradecido a todos que suportaram me ver abraçado ao caixão de meu pai, tão menino. Eu entendo o quanto a memória nos empurra para frente. Façam das suas memórias combustível.

Não tardem. Pois, parafraseando Edenilton Lampião: de repente, uns somem do cenário.