Eles sao educados. Silenciosos. Dao passagem para pedestres e automoveis. Andam vagarosamente pela calcada. Compartilham o cafe da manha e o lanchinho da tarde. Sao pacientes: 8h00 da manha estao plantados na porta da CBS; 17h00 tambem. Eles sao os grevistas mais comentados dos ultimos tempos. Sao os roteiristas de Hollywood. Os caras que escrevem toda a palhacada e as coisas legais que o mundo inteiro ve. Cada pessoa desse planeta sabe dizer "porra, aquele filme tem uma frase...". Eles exibem diariamente cartazes com o desenho de um punho cerrado segurando uma caneta. E distribuiram por toda Los Angeles outdoors dizendo "Studios, do the write thing!". Muito bem sacado.
Texto e' tudo e os textos estao parados, engavetados. Angelina Jolie falando besteira perde (grande) parte do charme. Brad Pitt dizendo idiotices fica sem graca (ou nao?). Varios programas de televisao estao atrasados porque os atores nao (tem) sabem o que falar. E' uma greve interessante. Sem abrir a boca voce tem o poder de calar a todos. E' so' uma questao de atitude. Se vai dar resultado ou nao, essa e' outra cronica...
Uma amiga que conheci bem pouco tempo atras - roteirista, cineasta e antropologa - me chamou de observador participante. O que os antropologos diriam de "afetado" pela cena. No sentido de que o afeto e' fundamental e eu me envolvo com cada momento meu. Puts, ela esta' certa. Eu sou assim. Um roteirista da CBS foi almocar no restaurante dia desses. Quando me vi, ja' estava entupindo o cara de perguntas. Ele me explicou que os roteiristas estao em greve porque ganham menos de 1% do produto final - o filme. Em termos de porcentagem, deve ser uma merreca mesmo. Os diretores ganham milhoes. Os atores ganham bilhoes. A industria ganha trilhoes. Os caras que sao o principio de qualquer historia... bem, esses sao os grevistas. Lembrei agora de uma entrevista de Charles Bukowski, que encontrei na internet, onde ele diz que viveu tudo porque sempre ha' algo para ser dito. Por isso ele se envolveu com tantos momentos.
Enfim, todas as manhas eu caminho por entre os grevistas. Estaciono meu carro na quadra atras da CBS. Caminho um pouco pela Beverly ate' o cruzamento com a Fairfax. E naquela esquina mora uma mendiga, no ponto de onibus. Uma senhora. Largada, suja, fetida. Nuvens ou sol, embaixo de um cobertor encardido. Tudo o que ela tem sao alguns trapos guardados num carrinho de supermercado e uma mala de viagem bem velha. Sempre sentada, esperando alguma coisa. Nos ultimos dias ela tem comido uns hamburgueres. Nao sei como. Talvez alguem passse por la' e garanta a refeicao. Ainda nao descobri onde ela faz as necessidades fisiologicas. Eu devo ter virado mais um no cotidiano dela. Muito embora ela ainda nao tenha olhado pra mim. Ao menos nao percebi.
Quando atravesso o farol, tem outra mendiga do lado de la'. Morando no ponto de onibus da esquina oposta. Ela esta' sempre lendo um livro. Isso naturalmente me deixa muito curioso. Ja' tive vontade de parar e trocar aquele papo. Mas o cheiro me impede. Mesmo que o meu estomago esteja vazio, temo pelo pior. Vou me superar. Ela e' o tipo de pessoa que vale a pena puxar uma conversa, certeza.
Passos adiante, roteiristas-grevistas manifestam surdamente. Ninguem escreve sobre as mendigas de Los Angeles. Acho que elas nao interessam a ninguem.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
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Um comentário:
Eu Li primeirooooo e recomendo.
Uma percepção digna de comentários! Este garoto vai longe. Parabéns Gui xxx
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