domingo, 25 de novembro de 2007

Violencia dos anjos

- Ei, me paga um prato de comida?
- Esta com fome e sem dinheiro?
- Sim.
- E por que?
- Porque estou desempregado.
- Por que?
- Porque nao tem emprego.
- Entendo. Ok, entra ai' que eu pago.

Nao consigo negar um prato de comida. O cara te pede um prato de comida, nao da' pra negar, qualquer que seja a origem do sujeito. A violencia angelena faz muitos sem-teto. A cada esquina, a cada ponto de onibus ha' um americano abandonado. Muitos estao na rua por opcao mesmo, pois para eles a menor contribuicao do governo ja' basta para a sobrevivencia. Alguns sao originais e vao direto ao ponto: encontrei um que escreveu num papelao "pra que mentir? quero beber cerveja". Ta' ai' alguem pra virar a noite tomando cerveja. O que me pediu comida era um tipico red-neck: pescoco avermelhado, bigodao, camisa por dentro da calca, botas - dificil encontrar um americano do interior sujeitando-se a tanto.

E esse era um dia que queria apenas ficar tranquilo, sem nada pra pensar. Foi um dos mais felizes da minha vida: naquela noite vi um show do Van Halen, com 30 dolares de cerveja na corrente sanguinea. Que oportunidade eu tive. Ali lembrei de tanta gente, senti falta de tanta coisa, me isolei outra vez com tamanha vontade.

Sai' do ginasio misturado na multidao. Leve. Realmente feliz. Caminhei pelo centro de Los Angeles ate' o metro mais proximo. A estacao estava cheia. Chegou o trem, entrei, me agachei diante da porta do vagao. Na parada seguinte, bem na parada seguinte, uma mulher entrou com uma bicicleta e bloqueou qualquer passagem minha. Tudo bem, eu nao precisava descer nem sair dali. O metro, naquela hora da noite e naquela regiao, so e' frequentado por negros e latinos. Brancos quase nao usam metro: vao de carro. E' a face mais escancarada da diferenca de classe da sociedade. O condutor deu sinal de partida, a mulher da bicicleta falou alguma coisa comigo, mas eu nao consigo entender a lista de girias e o jeito de falar dos negros angelenos. Coisa de gangue. O namorado dela apareceu. A cara do Mike Tyson. Nao abri a boca.

Quando as portas estavam se fechando, ele as impediu. Queria que a namorada saisse. Ela nao saiu. E ficaram la', ele ordenando, segurando as portas e ela negando. Mesmo com os chamados insistentes do condutor, atraves do sistema de radio e cameras internas, ele nao deu a minima. Por instinto, apontei meus olhos para todas as direcoes possiveis, procurando identificar como sair dali em caso de sangue quente. Nao tinha como. O namorado nao perdeu a paciencia. Quem perdeu foi um sujeito tipico de gangue de latinos que estava sentado na outra ponta do vagao. Ele veio andando a passos largos em nossa (eu e o casal de namorados) direcao. Enfiou a mao na mochila, sugerindo que estivesse prestes a sacar uma arma. Pensei de novo: pra onde vou correr? Eu estava sem saida. Alguem pediu calma ao latino: porra, nao faca isso. Ele entrou no bate-boca com o cara, exigindo que liberasse as portas. O cara nao cedeu e o chamou pra briga la' fora, impedindo que o trem partirsse. Parecia que ia piorar, mas a namorada teve a brilhante ideia de sair. Pronto, resolvido o problema. Simples assim.

Relaxei de novo.

Nenhum comentário: