Depois de beber muita cerveja, acordei com uma vontade incrivel de cair na estrada. Mas assim uma estrada long road, endless, daquelas que a gente roda ate' o carro nao servir mais pra nada. Na verdade eu queria dirigir ate' o Alasca. Legal, gostei da ideia. Agora eu quero ir pro Alasca. Ancorage. Monte Denali. Deve ser demais. Enquanto nao largo tudo pra fazer isso tambem, enchi o tanque do carro e peguei a Pacific Coast Highway, sentido sul. O maximo que conseguiria: duas horas ate' San Diego. Sai' de casa com a praia de La Jolla na cabeca.
Outono. O sol brilhando e o vento frio. Sempre seco. Ate' ai', tudo bem, porque e' seco tambem no calor. Acontece que a janela da estrada e' implacavel comigo. A estrada beirando o oceano. Injeta na minha cabeca uma quantidade absurda de pensamentos para o futuro, de analises do presente e de lembrancas do passado. As lembrancas do passado sao crueis, no sentido de que as boas memorias duelam com as ruins. E as ruins sempre tendem a vencer, uma vez que vao direto na jugular. Magoam muito. Entao eu saio da briga e fico com as boas, pois elas fazem-me sentir um verdadeiro felizardo, um vencedor. Ai' eu lembro o quanto eu gosto da minha vida, de mim e das pessoas do meu convivio. Eu nao tenho o direito de reclamar, pois a maior ficha que aprendi e' que as coisas se resolvem. De um jeito ou de outro, mas se resolvem. Entao estou livre e consigo retomar os meus sentidos para apenas sentir o cheiro do ar que respiro, as cores que vejo, o tempo que gasto.
E a grande equacao do presente, a trave que me sustenta, o corretor que coloca tudo em seu devido lugar, me foi dada de graca pela sensibilidade de uma crianca. Sem eu pedir. Meu filho apenas me deu a chave que os adultos nao conseguem usar, nem eu. Mas tento, juro. Durante um banho fraterno, debaixo da agua morna, com todo o amor puro que um pai e um filho podem trocar, ele me disse assim: "pai, pensa bem, todo dia e' hoje. Nao tem amanha, pois quando chegar amanha voce vai me dizer que e' hoje. Entao nao existe amanha. Todo dia e' hoje." Obvio, simples, direto, curto, sem firulas. "Todo dia e' hoje" e' a frase mais inteligente que ouvi em toda a minha vida. Ele sacou tudo sem precisar ler O Poder do Agora, que custei a deglutir meses depois. Tomara que a sociedade nao interfira na consciencia dele.
O fato e' que cheguei em La Jolla e tomei uma cerveja para curar a ressaca da noite anterior. Cheia de pedras e pequenos penhascos, La Jolla e' um convite para aqueles que querem ficar em silencio ao som do mar e apenas olhar quao longe e' o horizonte. O dia foi lindo. Encontrei a minha rocha e sentei. Fiquei pensando que chegaria na Asia se pulasse ali e saisse nadando ate' a outra margem do oceano. Puxa, os primeiros navegadores realmente eram destemidos. Cair no mar so' pra ver onde vai dar exige uma capacidade de despreendimento de poucos. Tao assustador como entrar numa nave apontada para qualquer constelacao acima das minhas orelhas e partir. Acho que eu partiria. Se extra-terrestres me fizessem o convite, acho que Vitor e Dante entenderiam.
E as gaivotas? Como e' possivel fazer voos baixos como aqueles? Rentes `a superficie. Alias, como e' possivel voar??? Voar e' do caralho. Os seres vivos que voam sao melhores que os outros. Estao acima da media. Sao incomparaveis, porque eles sempre -EM QUALQUER SITUACAO, SOB QUALQUER ARGUMENTO - poderao dizer: "ah, mas eu posso voar". "Eu posso voar" acaba com qualquer conversa. E ponto final.
De forma que o brilho do sol criou, sobre a agua do mar, uma trilha de cacos de espelhos refletindo bem na minha direcao. E eu pensei "como alguma magoa existe em mim se o que esta' sendo oferecido `a mim e' divino?" "como eu posso querer fazer algum plano para o futuro se este instante e' unico, irreversivel e so' meu?" Lembrei que vinte anos atras a vida dobrou uma esquina sem a minha consulta ou permissao. E passou tao rapido... Tentei me imaginar vinte anos adiante lembrando da tarde em La Jolla. A existencia e' grande demais para evitar o presente. Nao ha' nada antes nem depois. Todo dia e' hoje. Todo dia e' hoje. Puta que pariu, todo dia e' hoje! Os pelos dos meus bracos se arrepiaram. Eu nao estava sozinho. Alguem de outro plano me tocou a medula e me abencoou. Eu nao estava sozinho. Outras poucas pessoas deste plano encontraram outras pedras e estavam ali tambem. Uma abriu um livro. Outro molhou os pes na agua. Outros conversavam na areia. Criancas corriam livres por entre os penhascos. Um casal de velhinhos permancia de maos dadas, sem dizer nada. Dois amigos da terceira idade sentaram num dos bancos com vista pro mar, sem dizer nada. Nessas horas ninguem diz nada porque nao ha' nada a dizer. O que ha' 'e compartilhar. Tem muita gente feliz sozinho, mas uma frase do filme Into the Wild me veio `a mente: "a felicidade so' e' quando compartilhada". Um desafio aos solitarios felizes, como o proprio autor da frase, diga-se.
Embora nao conseguisse partir, mas satisfeito com o meu instante, levantei e parti. Cai' na estrada de novo de volta pra casa. O sol ainda estava la', tinha mais a oferecer. Os instantes conspiraram a meu favor. Cinco minutos de direcao tornaram-me sonolento. Briguei com as palpebras. Consegui ler a placa indicando a praia da pequena Encinitas e resolvi parar. Nunca estive la' antes. E me deixei guiar. Direita, esquerda, reto, aqui sim, aqui nao, cheguei numa rua sem saida, que terminava numa especie de drive-in, onde o telao era... o mar!!!! O mar imenso. O sol cozinhando os tons amarelos, indicando o por. Deitei o banco do carro e dormi. Quando acordei, o ceu estava numa variacao de cores que so' Salvador Dali. Novamente silencio, exceto o som do mar. Levantei, olhei para os lados, alguns motoristas perdidos como eu, olhando exatamente a mesma coisa que eu, olhos fixos no horizonte como eu, pensando naquele exato instante como eu. Um senhor, sentado no capo do seu carro, bem devagar virou a cabeca pra mim e fez aquela expressao com a face do tipo "puxa... o que e' isso que estamos vendo". Me senti como um dos unicos seres humanos presenciando algo completamente extraordinario. Se eramos os unicos, nao sei. Mas definitivamente era extraordinario. Olhei la' pra baixo e vi algumas pessoas paradas, em pe', tambem olhando aquele sol caindo, aquele horizonte linear, e especialmente aquele ceu pluri-tons invadindo o continente. Lembrei de outro filme, Cidade dos Anjos, da cena em que os anjos se reunem na praia para contemplar o por-do-sol.
Assim que a Terra se virou a ponto de nao vermos mais a bola de fogo, um a um foi partindo.
****************
Dias depois de ter tido aquela conversa com o Vitor no chuveiro, ensinei para os meninos uma cancao de ninar.
Todo dia e' hoje
Eu quero paz, voce nao ve?
Eu trouxe um presente
Especialmente pra voce
Tem bala, livro, video,
Muita coisa pra brincar
Entao fique contente,
O meu amigo vai falar
Mamae te dou um beijo
Meu papai, um abracao
Todos de maos dadas
Esta' valendo a reuniao
O Vitor e o Dante
E quem mais puder chegar
Ganha quem primeiro o meu amigo revelar
Esta' dentro de mim
E nos seus olhos posso ver
Entao fique contente,
Esta' quente, pode crer
Mas isso tanto faz
Logo mais vira' o sol
Todos de maos dadas
Tem anjinhos ao redor
Mamae te dou um beijo
Meu papai, um abracao
Todos de maos dadas
Esta' valendo a reuniao
terça-feira, 27 de novembro de 2007
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