- Hey Daniel, vamos fechar o restaurante tarde hoje e eu não estou com a menor vontade de dirigir até Orange County. E o pior é que eu abro o restaurante amanhã cedo. Dá pra dormir lá na sua casa?
- Beleza, cara, sem problemas.
- Cool, a gente compra umas cervejas e vamos pra lá então.
Daniel é um venezuelano bacana, que aprendeu a cozinhar feijoada e cortar churrasco muito bem. Fala inglês e português fluentemente. É bom de papo. A nossa conversa já havia caído na política social de São Paulo e Caracas, na sociedade americana, nas canetadas de Chavez, nos discursos de Lula, quando a placa de open virou para close. Fechei rápido o caixa, ele limpou rápido as tábuas de cortar carne, pegamos nossa gorjeta e saímos.
Bebemos todas assistindo ao documentário Favela Rising, que ele havia acabado de ganhar não sei de quem e queria me mostrar. Conta a história do grupo carioca Afro-Reggae. Queimamos as últimas pontas também, já putos com as falhas sociais dos nossos países. Muita miséria. Muita violência. Muita coisa errada e bla bla bla. Percebemos a tensão e mudamos o rumo da prosa pra melhorar a energia. "Cara, vamos apenas curtir essa merda!". Não deu outra. Já era meia-noite, eu pensava seriamente em dormir, quando Daniel recebe um telefonema.
- Onde? Double S? Saints and Sinners? Beleza, disse ao celular.
- E aí Gui, vamo lá?, disse à mim.
- Agora, disse à ele.
Tudo estava bem. Os venezuelanos me pagaram uma rodada de cerveja e outra de tequila. curtíamos a música, o show pirotécnico das duas bartenders mais lindas da Venice Blvd. Mas alguém me segurou pelos ombros.
- You! Get tha fuck outta here right now!!! Sai daqui agora!!, era o segurança, daqueles com as orelhas cobertas de piercings e tatuagem até o pescoço.
- What? What happened? What tha fuck is going on? O que foi cara?, era eu.
Ele nem me respondeu. Simplesmente me colocou pra fora. Lá fora resolveu me dizer algo.
- Por que você vomitou no meu camarada?
- O que?
- Não minta pra mim, seu filho da puta!!
- Porra, eu não estou mentindo porra nenhuma! Não tenho a menor idéia do que você está falando! Você pegou o cara errado!
- Vomitou sim!
- Eu não vomitei, caralho! Não vomitei nem em mim, nem no banheiro, nem em ninguém! Você está entendendo o que estou dizendo?
Os venezuelanos saíram pra ver o que estava acontecendo. Eles conhecem bem os seguranças. O cara contou a mesma história, mas mudou de idéia e teve a brilhante idéia de chamar a "vítima". Enquanto isso a turma dos pitboys americanos já havia percebido a movimentação e só estava esperando a primeira faísca pra cair na porrada. De rabo de olho, eu identifiquei pelo menos três planos de fuga, caso não fosse possível sair da pancadaria. Quero dizer, se não fosse possível sair da pancadaria, eu não fugiria de qualquer maneira.
Chegou a vítima. Era um maluco qualquer da turma dos cubanos. Ele olhou bem pra minha cara e... "Nah, não é esse."
E o que era tenso virou ternura. Como num botão on-off, tudo se transformou numa camaradagem incrível: abraços, pedidos de desculpas, apresentações de amigos e amigas. Cubanos, venezuelanos, americanos e seguranças confraternizaram-se comigo e me colocaram pra dentre da boate outra vez. Eu virei popular. Os cubanos me pagaram duas rodadas de cerveja. Os venezuelanos, mais outra. Ganhei a proteção dos pitboys americanos quando eles descobriram que eu era brasileiro. Pensei "de quem esses caras são fãs, agora? Pelé... não. Ronaldinho... talvez. Romário... pode ser. Carmem Miranda... não, difícil. Roberto Carlos... Nelson Ned... não, esses são ídolos dos mexicanos..."
- Cara! Você é brasileiro! Nossa, eu conheço vários Gracies!!!
Claro, evidentemente ele lutava jiu-jitsu. Voltando à música, cada pitboy que passava por mim era um tapinha nas costas. "Whassup man!"
Fiquei tão em casa que não aconteceu absolutamente nada quando, por engano, diga-se, entrei no banheiro das mulheres. Eu precisava jogar fora toda aquela cerveja, pelas vias normais, é verdade. E com urgência. Não prestei atenção nas portas. Eu já me recolhia, fechando o zíper, me viro e
- O que você está fazendo aqui?
- Opa, o que VOCÊ está fazendo aqui atrás de mim?
- Ué, aqui é o banheiro das mulheres!
- Não! Não? É? Vamos ver.
Fomos.
- Puuuutz, me desculpa! Sério! Nem tinha visto! Foi mal.
- Tá, tá, tá, tudo bem.
terça-feira, 20 de novembro de 2007
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Um comentário:
Bom, depois desse começo a disconfiar de quem foi a culpa da briga do Little Darling!!
hahahaha
É CAFLITO É CAFLITO!!
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