sábado, 10 de novembro de 2007

Reencontrei Juan

Reencontrei Juan. Semanas antes de comprar meu carro, esse cara foi a luz no fim do tunel que eu precisava. Naquela noite, eu havia fechado o restaurante e nao consegui pegar o onibus que me levaria ate' em casa. Essa mesma linha, depois da meia-noite, encerra num terminal na metade do caminho. Nao tinha opcao, apostei nessa ideia na esperanca de que alguma solucao - tipo uma linha extra, ou um ponto de taxi disponivel - pudesse estar la'. Nao estava.

O onibus estacionou, eu desci com a mochila nas costas (era o unico passageiro), o motorista apagou as luzes da conducao e foi embora. O terminal de onibus estava completamente vazio e quieto. Tao silencioso que podia ouvir casais de grilos discutindo a relacao. Nada. Ninguem para que ao menos eu pudesse perguntar "voce tem ideia do que eu faco agora?". Ao meu redor, um patio levemente iluminado. E eu nao tenho celular. Pensei em usar um telefone publico, mas nao encontrei. Mesmo se encontrasse, nao adiataria grande coisa, uma vez que eu estava sem moedas nem cartoes pra completar a ligacao. Enfim, situacoes estranhas em que a gente se mete vez ou outra e nao entende o por que, apenas respira fundo e se pergunta "que porra eu to fazendo aqui mesmo?".

Nao me desesperei. Sai do terminal, caminhando pelas ruas. O que tambem nao e' grande negocio na California, uma vez que as pessoas nao tem o habito de andar pelas ruas, ainda mais durante a madrugada. Nao passava taxi algum nem qualquer carro. Mas a lua estava la'. Cheia, solida. Logo num dos primeiros cruzamentos eu senti um alivio, uma possibilidade de conseguir voltar pra casa. Vi uma loja de bebidas aberta, luzes acesas e aquele neon piscando (ou falhando) "open", "open", "open".

Acelerei o passo, alcancei, entrei e... "oi, alguem ai'?" Num primeiro momento, nao ouvi resposta alguma. Perguntei de novo. Juan apareceu. Gordo, bracos cobertos de tatuagens, cabelos compridos, camiseta preta. Roqueiro nato. Calmo, fala mansa, simpatico.

"Hey, posso ajudar?"
"Espero que sim, perdi meu onibus e preciso pegar um taxi pra voltar pra casa. Voce tem algum telefone que eu possa usar e alguma companhia que eu possa chamar?"
"Yeah, espera um pouco"

Juan voltou para tras do balcao, pegou o telefone e discou. "Fala cara, tudo bem? Manda um carro pra ca, beleza?" Colocou o telefone no gancho e virou pra mim. "O carro ja' ta' chegando. 15 minutos".

Eu fiquei com aquela cara de interrogacao. "Who the hell is he calling?" Decidi logo quebrar qualquer tentativa de gelar o ambiente.

"Bom, meu nome e' Guilherme"
"Legal, o meu e' Juan, tudo bem?"
"Certo. Juan, alem das bebidas, tem algo pra comer aqui?"
"Ali"

Me apontou para o balcao de comidas mexicas e demais tranqueiras junkies. Peguei um burrito e uma garrafa de cerveja. Entre uma mordida e outra, entre uma golada e outra, fui contando pra ele que precisava comprar um carro, que estava afins de arrumar um trampo em LA e bla bla bla. Ele me disse que era californiano, filho de pais latinos. Nao pude esticar a entrevista: o carro chegou.

"Falou cara, boa sorte"
"Obrigado, Juan, ate' mais"

Noite seguinte me vi na mesma situacao, sabendo agora onde encontrar refugio. Entrei na loja de bebidas e Juan ja foi pegando o telefone, rindo. "Hey, manda um carro pra ca' de novo". Nao estava com fome, mas estava com uma puta sede. Comprei uma cerveja. Como eu era o unico cliente daquela madrugada, sentamos na calcada pra bater papo. Juan nao esperava que eu fosse brasileiro. Achava que eu era europeu (engracado, outras pessoas tambem me disseram isso). E como evidentemente falavamos de rock n roll, ele ficou mais feliz ainda ao descobrir minha nacionalidade. Era fa de Sepultura. Ai' a conversa rolou para pura diversao e aquele festival de "yeaahh" "puutaaa que pariu!" "do caralhooo!". Eu disse a ele que vi o ultimo show do Sepultura no Olimpia, em Sao Paulo, ainda com Max Cavalera nos vocais. Mas Juan veio com uma historia muito melhor.

Ele pegou um show do Sepultura em LA. Agora nao me recordo onde. Acabou ficando para o after-party e encontrou todos os caras da banda. Bebeu todas e fumou todos com Max.

"Cara, aquela noite foi foda..."
"E', imagino..."

O taxi chegou.

"Valeu, brother, se precisar, aparece ai'"
"Nossa, fechado cara!"

Mas eu comprei o carro e nunca mais havia voltado. Alias, na noite em que bati o hondinha, eu planejei passar por la' pra reve-lo, comprar uma caixa de cerveja e mostrar a caranga. Nao o fiz. Por algum motivo eu passei direto. E quadras a frente trombei com uma SUV novinha... nao, nao quero falar disso de novo.

Eu dizia que reencontrei Juan. Noite dessas finalmente parei por la'.

"E ai' cara! Sumiu. Quer um taxi?"
"Nao, valeu. Hoje vim de carro. Passei aqui pra te cumprimentar e comprar minha caixinha de cerveja"
"Comprou um carro?"
"Comprei"
"Bom?"
"A piece of shit"
"Piece of shit? Hahaha, legal"
"Honda 91. Mas e' o que esta' me salvando ne', me levando para os lugares"
"Ta' certo. E o rock?"
"Vi algumas coisas, comprado CDs. Fui no Foo Fighters e os caras fizeram uma jam com o Lemmy. Genial?"
"Lemmy tava la'? Que maravilha"

Chegaram alguns clientes, ele precisava trabalhar. Paguei minha caixa de cerveja e sai'.

"Falou, cara, aparece ai'"
"Beleza, Juan, ate' mais!"

Juan e' um cara legal.

Um comentário:

Thiane disse...

Gui! Vc viu o Lemmy de pertinho. Só por isso perdôo a porcaria do autógrafo do Slash hahahahaah