William caiu na estrada. Colocou seus oculos escuros e seguiu direto para a freeway. Travou o cinto de seguranca com a mao esquerda e empurrou Beatles adentro do CD player com a mao direita. Mal ajeitou os retrovisores. Aumentou o volume ao limite do insuportavel e foi direto para Getting Better. Ao primeiro acorde, cantou como quis. Dancou sentado ao volante. Abaixou o vidro, deixou o ar bater na cara, reverenciou o sol, curvou a fronte ao ceu. Admirou cada palmo de concreto dos contornos da cidade grande. Silenciou-se em respeito `as curvas das montanhas.
I have to admit, is getting better all the time. Getting so much better all the time. William sacou do bolso a foto dos seus filhos. Cheirou-os. Beijou-os. Falou com eles. William veio `as lagrimas all the time. Nao parou de cantar nem de pensar. William nao sabe porque se submete a tanto. William nao sabe de nada. Ainda assim ganhou um sorriso da garota que trafegava na mesma mao. Um aceno, uma buzinada. Ele canta, danca e chora. Vai devagar, nao liga para o comboio que o segue. Ele pertence a tudo e a lugar nenhum. Ele volta `a mesma musica quantas vezes forem necessarias.
William ri ao rever os arquivos de sua memoria. E tambem se diverte com as frases coladas nos carros da rodovia. Ele tem mania de ler placas de automovel e tentar decifra-las. William e' um cara que baba pelos Camaros. Ve um carro "just married" e acelera um pouco mais so' para ver o rosto das pessoas e pensa "hahaha, comecou o tormento de suas vidas". Sarcastico demais. Mas William se sente um idiota egoista e sabe muito bem que nao e' nada disso. Pede desculpas ao casal e deseja-lhes paz e tranquilidade. Repete o pedido, por via das duvidas... Nao quer ser punido pelo mal pensamento.
Pois William tem sido beneficiado pelos bons pensamentos e agradece do fundo do coracao a todas as pessoas. Ele nao para de pensar. Pensa em escrever tudo o que esta' pensando. So' que William pensa muito mais rapido que sua capacidade de escrever. Nem que tivesse um computador no colo 24 horas por dia, ainda assim conseguiria faze-lo. Ele flutua, mergulha num mundo que nem ele conhece. Pensa tanto que comeca a ficar agitado, tao agitado que precisa de um pouco mais. Sente uma vontade enorme de ficar bebado. William quer se desconectar, simplesmente nao quer fazer parte de nada, nao quer fazer parte de nada disso. Mas nao pode porque sente prazer em sentir seu organismo bem vivo.
William usa Dead Kennedys como estimulante. Toma uma overdose de Let's Lynch the Landlord. Sim, vamos linchar todos eles! William quer acabar com essa palhacada. William vai ficando nervoso `a medida que pensa em linchar todos eles. William esta de saco cheio de tanta gente burra, de tanta gente preguicosa, de tanta gente que nao se da' ao trabalho de se servir. William se irrita consigo mesmo porque tambem sente que tem dificuldades de se enquadrar em alguma coisa ja' que ele pertence a tudo e a todos. William se irrita com a sociedade, se irrita pelo simples motivo de as pessoas pensarem tao diferente uma das outras e nao conseguem chegar a lugar nenhum. William ficou puto pra caralho com as pessoas que fazem perguntas cretinas e satisfazem-se com respostas estupidas. William descobre que nao adianta fugir, que sempre havera um tormento. William conhece a sua felicidade e por isso mesmo esta ciente da sua tristeza. Nao entende se isso e' bom ou ruim. William por algumas milhas nao queria ser assim. Ele queria simplesmente seguir adiante como faz a maioria. Mas ele e' tao idiota que tambem se aborrece com essa ideia porque simplesmente seguir adiante nao tem graca nenhuma. Ele chega a conclusao que vai passar o resto da fica pensando, admirando a vida, emputecendo-se com as pessoas, admirando as pessoas, calando-se e assalariando-se em busca de uma aposentadoria que garanta as barbas brancas de sua velhice.
William sofre demais por pensar demais. E tambem suporta demais para seguir as regras. E William sempre acaba conhecendo pessoas interessantes, sempre se cerca de pessoas interessantes para salva-lo de qualquer encruzilhada. Ele dorme mal, acorda todas as madrugadas pensando exatamente do lugar onde parou de pensar antes de dormir. Ele fica pensando nas pessoas, faz preces para todas elas. E quando esta na estrada fica pensando nisso tambem. Uma cerveja antes do almoco e' muito bom pra ficar pensando melhor.
Ate' que William fica de saco cheio de tanto pensar. "William, pare de pensar e respire fundo", grita-se. William se acalma, volta `a vida. Ouve as batidas do seu coracao. Retoma os enquadramentos da janela, procura estacoes de radio. Ele vive `as custas de trilhas sonoras. Encontra um transito pesado e sabe que e' assim mesmo. Ele agradece pela cidade, pelas fachadas dos predios, por ser urbanoide viciado em cimento. Sabe tambem que nao consegue esquecer do ceu que o conforta. Sonha com o dia que possa fugir alguns dias nas montanhas.
William se acalma e agora aposta no R&B de Ray Charles. Delicia-se com o piano de Ray, com as vozes de suas cantoras, num c^antico quase mantra. Saboreia cada segundo do seu dia. Tateia cada molecula do ar. Rastreia cada cheiro das fumacas automotoras. Mas Ray quis cantar Eleanor Rigby e tambem pergunta `a todos "oh, look at all that lonely people! Where do they all belong? Where do they all come from?". E William ve todos aqueles solitarios como ele ao seu redor no transito da cidade e todos aqueles sentimentos comecam a voltar a tona e lamenta-se por tantas pessoas e lembra da imbecilidade humana que ainda persiste e...
Chega William! Desliga esse radio e desce desse carro agora!
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
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3 comentários:
Que drogas William anda tomando aí na Califórnia que o fazem referir-se a si mesmo na terceira pessoa? hahahahahah
bjs e saudades,
Carla
Cuidado William.Preste atenção!!!Coração e mente costumam explodir de tanto pensar.E aí...
Beijos
Mama
God bless you even more!
:o)
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