Fui engolido pelo cotidiano. Além dizer "bom dia", eu perguntei ao motorista do ônibus até que horas ele trabalhou na noite anterior e quanto tempo ainda tinha de rua. Quando chega-se nesse ponto, de ficar amigo do condutor, significa que você está completamente envolvido pelo cotidiano. Eu não tenho mais de levar relógio comigo. Sei se estou atrasado, em tempo ou adiantado dependendo das pessoas que estão no ponto. "Ah, essa menina é das 7h30", "Beleza, esse senhor é o das 7h15, estou com o horário legal".
É preciso apenas não fazer rotina do cotidiano. Caso contrário os personagens começam a desaparecer bem na sua frente. Outro dia uma pessoa tocou a minha nuca com a ponta do dedo indicador no meio da multidão. Só ouvi a mulher baixinha me dizer: "você é um abençoado e Jesus te ama". Olhei para trás e respondi "que bom, amém, eu amo Jesus também". De qualquer forma, era a melhor (ou a única) coisa que poderia dizer. Numa situação dessas, não há como reagir de outra maneira. Eu fiquei de pé. Ela entrou, sentou e ficou me encarando fixamente. Disfarcei. De repente ela começou soltar frases numa língua qualquer. Muito estranho. Fosse aramaico ou a língua dos anjos, nunca saberia. Ela começou a incomodar outras pessoas, a benzer todos ao redor, uma verborragia panfletária religiosa. Ficou nervosa quando três adolescentes mandaram-na calar a boca e se foi. Estranho acontecer a cena porque tive muitos pesadelos de encontros desagradáveis durante a semana inteira.
Poucos entendem, mas confesso que gosto de ônibus e metrô. Trens são geniais. Aqui me sinto bem. É um refúgio que me aglutina na massa. Paradoxalmente há uma certa sensação de liberdade, pois sempre estou em movimento. É isso, o transporte público atua no gerúndio, eu vivo no gerúndio: estou indo, estou voltando, pensando, observando, dormindo, lendo, conversando, lembrando, sonhando, planejando, rindo, chorando.
Meus tênis continuam sujos (muito carvão da churrasqueira flutuando e assentando no piso). A barra da calça, já rasgada de tanto caminhar. Mochila nas costas. Entre o punk e o Working Class Hero do John Lennon. Comprei o Los Angeles Times pra ler. Gosto do Los Angeles Times, sempre com reportagens muito boas, escritas por jornalistas que estiveram lá, sentiram o cheiro, tocaram com as mãos. As manchetes não são óbvias. LA Times dá uma coisa, NY Times dá outra, cada um por si. O mais interessante é que o primeiro caderno abre com as notícias do mundo: a crise em Darfur, a fome na Somália, a covardia contra os monges birmaneses, os governos europeus. Só depois seguem as notícias dos Estados Unidos, das disputas entre Hillary Clinton e Barack Obama à imbecilidade dos fanáticos religiosos do interior de Utah. Aí sim, os editoriais e os artigos de opinião.
Ao contrário dos jornais brasileiros, cada vez mais chatos, sem reportagens e egocêntricos. Te forçam a ler editoriais em primeiro lugar. Então te oferecem textos plastificados. Mal o leitor teve tempo de pensar na sua própria opinião e é obrigado a ler editoriais em forma de estatuto. Isso também explica por que o brasileiro lê pouco. O sujeito chega cedo na banca, todas as capas são iguais, sem criatividade alguma, e certamente vai embora pra não perder tempo com lorotas. É melhor mesmo trabalhar e ganhar o dinheirinho.
Os jornais viraram a Contigo! do Congresso Nacional. Tiras em quadrinhos. Quantas vezes as Mônicas vão dar para os seus Cebolinhas. Folha: "Renan Calheiros blá blá blá". Estadão: "Renan Calheiros nhém nhém nhém". Foda-se!!!!!!!!!!!!!!!!!! Eu quero que o Renan Calheiros vá para a puta que o pariu! Aliás, eu quero mais que o Congresso seja implodido e o Palácio do Planalto dominado pelo Movimento dos Sem-Teto. E que o Movimento dos Sem-Terra levante acampamento nos verdejantes gramados da Granja do Torto.
Humpf...
Deixa eu virar de lado que tem mais sol nesta janela.
sábado, 6 de outubro de 2007
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