domingo, 21 de outubro de 2007

O que são problemas?

Fiz um negócio da China e cai num conto das Arábias, mas não vou ficar 1001 noites sem dormir (nossa, que piadinha ruim...). O Departamento de Trânsito da Califórnia ainda não liberou a documentação do meu carro porque a oficina autorizada do órgão notificou que o possante está soltando fumaça demais. Tem uma pecinha do motor que precisa ser trocada, mas parece que é uma parafuseta tão cara que não vale o preço do carro inteiro. Eu tenho 90 dias para resolver a situação, foi o que disseram. O que também não me impede de rodar por aí. Descobri a terrível verdade: eu e George W. Bush temos algo em comum, estamos ferindo o Protocolo de Kyoto. Toda essa constatação me fez muito mal, me carregou de energia negativa, me cercou de uma aura ruim e agora bati o carro. Nada grave, apenas um amassado na ponta dianteira direita. Inacreditável. Eu digo novamente: as coisas acontecem, de uma hora pra outra.

Nas primeiras horas os meus músculos travaram, fiquei com os ombros doendo de preocupação. Parei pra pensar, pensar, pensar. Caí numa situação e tenho de conviver com ela. Criei um problema, não tenho como evitá-lo. Às vezes temos a mania de evitar uma realidade na qual já estamos imersos. E isso só aumenta o problema. Ou melhor, o problema persiste. Ficamos mordendo o rabo sem sair do lugar. É impossível alterar a realidade. É preciso aceitá-la. O melhor da vida é aprender o que fazer com a realidade até que a solução venha à tona. Um passo para o lado e você já vê a realidade de outra maneira, então tudo muda. Tudo passa a fazer sentido. A solução, seja qual for, vai aparecer. É só uma questão de percepção. Quanto mais sentimos que podemos perceber determinada realidade de um modo diferente, mais a vida flui. Eu sei, não é nada fácil. Não tenho a receita pronta, mas indico os seguintes ingredientes: uma parte de auto-confiança e/ou fé na Providência Divina; uma boa dose de desprendimento; doses homeopáticas de paciência.

Precisava pensar, encontrar uma nova maneira de enxergar esta nova realidade. Lembrei do filósofo Vítor Sierra. Antes de alcançar a selva angelena, tomei com ele um último café da manhã na vida paulistana. Enquanto eu fechava a mala, ele me apareceu com um pequeno livro. Disse: "Leve esse livro com você". Seco. Direto. Uma única frase cercada de um discreto sorriso. Os seus olhos na verdade disseram: "Não se esqueça de mim. Talvez em algum momento esse livro te ajude." Com esse diálogo em mente, inconformado por ter batido, voltei pra casa e vasculhei a mala de viagem. Peguei o livreto, fui pra varanda do apartamento, sentei sob o sol. Fechei os olhos, meditei um pouco. Drenei dois copos de vinho tinto. E só então abri as primeiras páginas do "Meu Primeiro Livro de Piadas".

Fui me divertindo com as piadinhas de louco. Um louco falou para outro louco. "Mandei uma carta pra mim mesmo". "Ah é? E o que ela dizia?". "Não sei, ainda não recebi". Dois loucos tomando banho no clube. "Duvido você subir nadando pela água até lá em cima no chuveiro". "Eu não. Aí você fecha a torneira e eu caio". Um louco fugiu do hospício, parou um táxi e perguntou ao motorista. "O senhor está livre?". "Sim, estou". "Então viva a liberdade!!!"

Liberdade.

Aí então um outro de mim sentou na minha frente, me olhou bem nos olhos e perguntou. "Qual o problema de ter um carro amassado, que solta fumacinha e não vale porra nenhuma?". Eu respondi: "Nenhum". E o outro de mim que estava me olhando ficou muito feliz, vocês tinham de ver. "Acertou!!! Não há problema algum em ter um carro amassado, que solta fumacinha e não vale porra nenhuma".

Ué. O que eu vou fazer se comprei um carro parecido com um camelo? Vou me divertir com ele. Se o antigo dono não quiser a caranga de volta, vou afundar abraçado com o hondinha. Quero dizer, afundar coisa nenhuma, o hondinha vai comigo para o céu. Quero dizer, eu vou para o céu. Se o hondinha vai ou não, é problema dele.

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