Não notei quando as duas entraram na fila. Baixinhas, morenas, latinas. Sem nenhum diferencial. Ao chegar pra pesar o prato "Oi, como vão as duas, tudo bem?" "Tudo bem, obrigada", fazendo eco. Acharam graça das bugigangas de halloween que já decoram o restaurante. Pesei, disse o preço. E uma delas "e você, quanto custa?".
Jamais esperaria uma pergunta dessas. Aliás, nunca ouvi uma dessas. Bom, na verdade, sim, okay, parecido com isso. Mas não assim, nesses termos, direto ao assunto, sem firulas, sem meias-palavras, um cruzado de direita na ponta do queixo. Já havia recebido ofertas pelos churrasqueiros: quanto vale um pedaço daquele? posso levar este pra casa? A anestesia travou qualquer boa resposta minha. Simplesmente não falei nada, quando poderia ter falado tudo. Cinco segundos calados foram demais para elas. O suficiente apenas para um "tchauzinho!" e oferecerem-me as costas. Enfim, elas saindo eram melhores do que chegando.
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Sacanearam a velhinha, só pode ser. Uma dessas turistas envolvidas com pacotes de viagem para a terceira idade. Parênteses: o nosso ponto no mercadão é definitivamente uma referência turística dentro do Farmer´s Market. Gerações inteiras de japoneses passam por lá e tiram fotos da gente – muito embora japoneses tiram fotos de qualquer coisa –, fazendo-me sentir um animal exótico assando animais em extinção. Escandinavos e russos chovem aos montes, sem economizar nos "oooohhh". Os americanos metidos a consumidores conscientes querem saber a diferença entre frango com alho e frango com bacon. Eu fico a um ponto de berrar "alho é o cheiro do rabo da sua mãe!" e "bacon é essa tirinha que você tem no meio das pernas!" Valho-me das teorias budistas e taoístas que aprendi. E tentam pronunciar os nomes das carnes em português. Já vendi picanja, picana, picanrra, franco com allrro, alacatra e até alcatraz. Sempre tem um termo novo. E não deixamos por menos: "aqui está sua picanja, senhor, bom proveito". Sem contar que na minha torre de comando me sinto num balcão de informações, pois a cada cinco minutos alguém passa por mim só pra perguntar onde é o banheiro, o caixa eletrônico, a padaria, a barraca de frutas, a comida chinesa, onde comprar jornal.
Ah, sim. A velhinha. Alguém deve ter ensinado a ela dois termos em português. Duas palavras amáveis, feitas uma para a outra. A senhora só queria ser simpática, como de fato o era. E então apareceu apenas para dizer "bucetinha e piroquinha!".
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Muito movimento à nossa porta. De repente, ouvimos alguém gritando lá no fundo. Gutural, raivoso, partindo de algum lugar de onde eu não consegui ver. O berro foi ganhando volume, sinal de que estava se aproximando. Era uma mulher, gorda, ágil, negra, cabelos bem curtos, usando sandálias, bermuda branca e camiseta azul marinho. Estava transtornada. Quando alcançou a área de alimentação em frente ao restaurante, começou a derrubar todas as mesas, assustando as pessoas na fila. Ninguém agiu com violência para detê-la. Atrás dela veio outra, esta normal, talvez ciente da situação. Com muita calma ela pronunciou algumas palavras e a louca cedeu, bufando, ofegante, porém diminuindo a respiração, hipnotizada pelo som da voz da mulher que lhe falava. Refeitas, as duas partiram.
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O maior saco é ficar plantado em frente de casais brigando pra decidir quem paga a conta. O mercadão é sempre cheio, não dá pra ficar esperando pitis de esposas e cinco-minutos de maridos. Preciso puxar a fila. O chavão "não se mete a colher" não vale pra mim. Na totalidade das vezes eu interfiro com esta cara-de-pau que Deus me deu: "ei, vocês querem um dado pra decidir? vocês escolhem um número e eu jogo, okay?". Ou "espera aí, eu tenho um baralho novinho aqui, cada um escolhe uma carta, vai". A discussão acaba na hora, pois cai a ficha do ridículo da situação. Outras vezes eu simplesmente pego um dos cartões de crédito que jogam na minha frente – ou dele ou dela, tanto faz – e realizo a transação enquanto a festa de argumentos prossegue. "Pronto, está pago, assine aqui por favor". Encerrado o assunto. Eles que discutam depois a partilha dos bens.
Dia desses não tive tempo de interferir. O piti falou mais alto que o cinco-minutos. Não lembro quem pagou a conta. Mas não esqueço quando ela largou o prato de comida na máquina de pesar, foi buscar um box-to-go, voltou, com a mão mesmo jogou toda a comida lá dentro, fez o mesmo com a comida dele, colocou numa sacola de plástico e "vamos agora!". Foi. Foram.
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Domingo à noite, já estava fechando o caixa, recolhendo todo o dinheiro, tirando todos os recibos, organizando toda a gorjeta. Louco pra beber cerveja, que evidentemente minutos mais tarde estariam vazando dos meus rins e enchendo a minha bexiga. Tomei um susto quando um estrondo seco saiu da churrasqueira dois passos atrás de mim. Um som como o de um saco de cimento caindo das alturas sobre um monte de areia. Buufffff!!!! Olhei pra trás e vi uma nuvem negra de poeira de carvão. O churrasqueiro cabaço tentou apagar a brasa de forma errada. Ele jogou um balde de gelo sobre o carvão aceso. Ele imaginou que o gelo derreteira e apagaria a brasa. A física moderna não permite tamanha cagada. A camada de gelo age como uma espécie de tampão, bloqueando todo o calor que existe ali, criando uma zona de pressão. O ar quente precisa fugir pra algum lugar. Como ele não tem força o suficiente para explodir a churrasqueira inteira, ele empurra a tampa gelada pra cima e gospe pra fora toda a poeira quente. Aprendi isso esses dias. Legal, né?
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
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3 comentários:
é rapaz..e você está por aí de novo... paro por aqui sempre que posso...
Os filhos como estão?
Nas últimas semanas produzi bastante material fotográfico...
Hoje postei no Portrait um ensaio sobre o circo Zanni e um outro mais
"filosófico"...
Estão bem bacanas!!!
http://aledacosta.blogspot.com/
Visite quando puder...deixe seu coments...semana que vem, postarei
Casas André Luiz e outras coisinhas!!!
valeu..
Obrigado
Ale
Cara, essa seqüência de cenas foi ótima!
Abraço.
Amiable brief and this enter helped me alot in my college assignement. Thank you for your information.
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