sábado, 20 de outubro de 2007

Gorjeta vale mais que dinheiro (?)

Fechei mais um turno do caixa e saí para dividir as gorjetas em algum lugar mais reservado na praça de alimentação. Um funcionário da cozinha veio correndo atrás de mim. Depois outro. Notei que eles queriam mesmo me acompanhar. Como a gente chama os novatos lá no restaurante, antes eu era apenas um cabaço. Já haviam feito isso antes, mas, como agora eu perdi o cabaço, senti algo diferente. A idéia era realmente me "investigar".

"Ei, por acaso vocês estão aqui pra me investigar?"
"Não, é pra acompanhar, pra ver se tá tudo certinho, se a gorjeta está sendo dividida corretamente, entende?"
"Como assim? Vou pegar o dinheiro da gorjeta pra mim?"
"Não, não é isso... é só pra acompanhar..."

Respirei fundo, contei até 1350 em dois segundos e me fiz de besta. "Tudo bem, vamos lá". Separei nota por nota, funcionário por funcionário, beeem devagar, só pra eles acompanharem.

Voltei pra cozinha com o dinheiro deles. Levei na brincadeira. "Aqui a parte de vocês. Mas está havendo a revolução da cozinha por acaso? Pressão total em cima dos caixas? Tá certo..."

Fui embora remoendo aquilo. Fui tratado como desonesto, injusto, capaz de roubar gorjetas por pessoas tão trabalhadoras quanto eu. Por pessoas que passam as mesmas dificuldades que as minhas. Por pessoas que lutam pelos seus míseros salários tanto quanto o meu. Pessoas, sempre as pessoas. Dinheiro, sempre o dinheiro.

Como eu não aceito trabalhar assim, dia seguinte fui direto para o meu gerente. Logo cedo, bem após dizer bom dia. "Chefia, está acontendo isso..." E coloquei toda a situação. Ele tinha algumas opções pra me dar. Me ofereceu esta: "Vá contando e repartindo a gorjeta durante o expediente, aqui mesmo no caixa, depois só entregue a cada um. E se alguém reclamar, mande falar comigo."

Engraçado observar o quanto os funcionários da cozinha ficaram ansiosos no final do turno. Pois eu não saí do meu lugar, fiquei contando tudo ali mesmo na minha sagrada estação de trabalho, na minha intocável torre de observação. Juntei a notas e fui entregando um a um. Muitas caras de desgosto fizeram-me saber. Uma delas arriscou abrir a boca: "Você não sabia que os caixas precisam estar acompanhado por alguém da cozinha?" "Não, não sabia. Nenhum superior meu me informou disso. Qualquer coisa, fale com o gerente. Boa tarde a todos, e até amanhã cedo". Parti.

8h30, abri o restaurante com um cozinheiro, uma auxiliar e um lavador de pratos. Bati meu cartão, estacionado bem no centro da cozinha. Os três me cercaram, vieram falar comigo ao mesmo tempo. Eu outra vez me preparando para a batalha da argumentação. Eu outra vez trocando verbos com as pessoas. As pessoas. Bom, eu também sou uma pessoa. "Você não sabia que os caixas..."

"Escutem bem o que vou dizer. Todos vocês escutem bem. Eu não preciso ser investigado. Eu não preciso que nenhum de vocês nem ninguém duvide da minha honestidade. Eu não quero ser tratado como alguém que está roubando dólares de vocês. Eu sou um cara que se dá bem com toda a equipe da frente e da cozinha. Eu sou um dos poucos que entram aqui pra conversar com vocês. Eu trabalho muito como todos vocês. Eu não aceito ser desrespeitado porque eu respeito cada um aqui dentro. Eu sou pago tanto pra controlar o dinheiro do caixa como para repartir a gorjeta. É o meu trabalho, não o seu. Não me desrespeitem. Nunca mais. Jamais."

Três pares de olhos ficaram olhando pra mim em silêncio. Até que algum deles sentiu vontade de me pedir desculpas. Desculpas aceitas, sem problemas, claro. E não se falou mais nisso.

O dia passou tranquilo. Não tive como evitar a hora de fechar o caixa e as banditas gorjetas. Passar por aquilo tudo de novo, dialogar, conversar, bla bla bla... Mas uma idéia me ocorreu. Primeiro fechei os pagamentos do turno. Recolhi o dinheiro, as notas fiscais, os recibos, passei o bastão para o caixa responsável pelo turno posterior. Peguei a fortuna da gorjeta matinal. Deve ter dado uns cem dólares e poucos. Ou menos, talvez. Para ser repartido entre uns 12 funcionários. Enfiei tudo num saco de papel e entrei na cozinha, acompanhado do discurso:

"Olá. Aqui está todo o dinheiro da gorjeta. Agora vamos inverter. Um de vocês conta e eu investigo. Alguém aí conta e eu só acompanho. Quem quer pegar essa bolada aqui (erguendo o saco de papel)? Você? Não? Você? Não? Você? Não? Você? Não? Ninguém quer contar a gorjeta enquanto eu observo? Okay, então eu deixo todo o dinheiro aqui e vou almoçar tranquilo. Repartam sem ninguém observar, apenas entreguem a minha parte daqui a meia hora. Certo? Não também? Então eu vou dividir esse dinheiro e já volto com a parte de vocês."

Ninguém deu um passo porta afora.

2 comentários:

Anônimo disse...

Sorte deles terem um cara como você na equipe. Sinceramente eu desejo que você ganhe muito, muito dinheiro e realize os seus sonhos.É para isso que o dinheiro serve... afinal voce está aí pq teve dinheiro para tanto. Bj.

Anônimo disse...

Parabéns Gui!!!!Como sempre você foi brilhante. Não podia esperar outra atitude sua!
Grande beijo.
Saudades maior ainda.
Mama