Ahmed Assam nasceu na Síria e cresceu em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Veio para os Estados Unidos ainda novo, estudou engenharia eletrônica em Ohio, casou e teve a primeira filha. Mudou-se para New Jersey por uma boa oportunidade de emprego e abriu espaço para nascimento da segunda filha. Decepcionado com o frio-que-corta-os-lábios do nordeste americano, conseguiu uma transferência para a Califórnia, uma casa confortável em Orange County e passou a trabalhar mais para dar conta da chegada da terceira filha. E então resolveu vender o carro pra mim.
Encontrei o telefone de Sam num classificado de jornal. Ele foi o primeiro da lista que atendeu ao meu chamado. Só por esse motivo cortei todas as demais opções. Não gosto de muitas opções, elas só me complicam a vida, tiram meu sono, não permitem que eu faça escolha alguma. Pelo contrário, só prolongam qualquer decisão, se é que consigo tomá-la.
"Oi, boa tarde. Li o seu anúncio no jornal e estou interessado. Ainda está vendendo o carro?"
"Sim, estou."
"Gostaria de dar uma olhada. Você pode me passar o seu endereço ou vamos marcar em algum lugar?"
"Conhece o Starbucks na Harbor?"
"Sim, conheço."
"Okay, vamos marcar lá daqui a pouco, às 19h00?"
"Fechado. Como é o seu nome?"
"Sam"
"Sam?"
"Sim"
"Ah tá. O meu é William"
Ele chegou um pouquinho antes. Coisa de árabe. Bem, na verdade, eu que cheguei um poquinho depois. Coisa de brasileiro. Nos cumprimentamos, ele foi bastante cordial e direto. Acho que os árabes são assim sempre: mercadores, vão direto ao ponto, sabem falar e negociar. Ele vestia calças jeans, estava com o cabelo bem aparado e barba feita.
"Então, William. Esse é o carro. Está muito bem conservado. Milhagem razoável. Os quatro pneus são novos. Passou por uma revisão recentemente, posso te dar todas as notas fiscais do mecânico. Anda bem, agüenta a freeway. O único problema é esse amassadinho aqui atrás."
Ele disse tudo o que eu precisava ouvir, porque é tudo o que eu entendo de carro. Não me dei ao trabalho nem de abrir o capô. Mas fiz minha encenação.
"Podemos dar uma volta?"
"Sim, vamos lá"
Viramos a primeira esquina. O pisca-alerta funcionou direitinho. "Mas diga, Sam, você mora por aqui?"
"Sim, moro aqui perto. A minha mulher usava este carro. Mas queremos comprar outro mais novo e decidimos vendê-lo."
Dei uma aceleradinha. O carro puxou, foi bem. Farol alto, okay. Lanternas de freio, também. "Sam, o carro anda bem na freeway?"
"Sim, anda. Se você quiser, podemos pegar a freeway."
Fomos. Entrei na freeway e puxei um pouco mais. Não puxou muito, mas andou bem. Testei os comandos dos vidros elétricos, sem problemas. "Sam, você está há muito tempo na Califórnia? Gosta daqui?"
"Sim, é um excelente lugar para criar os filhos, tem muitas oportunidades. Por isso viemos pra cá. E o clima me agrada mais."
Liguei o ar-condicionado. Bem fraquinho. Funcionou. "E como era o clima lá nos Emirados Árabes?"
"Aquilo é quente demais. Sete, oito meses de verão, com temperaturas batendo fácil nos 50°C. Vinte anos atrás, não tinha nada. Mas o país se desenvolveu muito. Dubai virou um grande centro comercial e turístico. É um país islâmico que vive muito bem com as questões ocidentais. Você encontra um shopping center e, do outro lado da rua, uma mesquita. Sem problemas."
Observei os sinais do painel. Todos na devida ordem. "Sam, tem muito brasileiro treinando times nos Emirados Árabes e a seleção nacional. Como está o futebol no Oriente Médio?"
"William, nós amamos o futebol brasileiro. Sócrates, Zico e Falcão são os meus ídolos. Eles foram geniais. Dessa nova geração, gosto mesmo do Ronaldo Fenômeno. Ele sim foi genial quando estava no auge. O Gaúcho é um ator. Só fica na firula, fazendo embaixadas, ganhando dinheiro para o clube e os patrocinadores. Por isso o Brasil não ganhou a última copa do mundo. Muitas estrelas e nenhum time."
O câmbio automático trocou as marchas corretamente. No tempo e na ordem. "Poxa Sam, você acaba conhecendo sobre o Brasil só pelo futebol?"
"Que nada. Outro dia eu estava estudando História com a minha filha. Aprendemos como a cana-de-açúcar foi importante na colonização do Brasil. Foi o grande produto de exploração por quase 2 séculos. Claro, muito às custas da escravatura."
Depois dessa grande demonstração de conhecimentos gerais, retornei. Chegamos ao local de partida e me comportei como um árabe: cordial, mercador e direto ao assunto. "Sam, então, você pediu 2 mil. Pago 1.8 mil agora."
Eu não esperava um sim. Queria me fazer de difícil e ligar só no dia seguinte.
"Okay, William, fechado."
E como um bom árabe, mantive a palavra. Fechei o negócio. Peguei toda a documentação, entreguei o dinheiro e parti de carro novo. Entrei correndo em casa e fui direto pro chuveiro. Debaixo da ducha morna, chorei de medo e de alegria.
sábado, 13 de outubro de 2007
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3 comentários:
certo guilhermeeeeeeeeee...agora motorizado....
Bem lokooo
Abração meu velho
Aê Gui, cê chorou com medo de que o carro do Iraquiense em questão fosse um carro bomba né???? hehehehe....
Abraaaaaaaaaaaço!!! Califórnia 1000 grau....
Começando a criar raízes, hein?
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