Quando as luzes se apagaram e abriram-se as cortinas, não havia palco algum. Apenas uma parede imensa e branca que deixou a platéia silenciosa. No muro antes escondido, o show de rock começou a ser exibido por um retroprojetor. Eu não entendi nada. Fiquei desconcertado. Mas a multidão de idosos – todos de branco, confortavelmente sentados em mesas brancas com toalhas brancas – prestaram muita atenção. Sempre em silêncio.
Saí pela porta principal e fui tirar satisfações com o bilheteiro. "Paguei pra ver um show em retroprojetor?" O bilheteiro, na verdade, uma mulher, me recebeu numa mesa dessas de plástico. Disse que não poderia fazer nada por mim. Eu insisti, mas ela deu de ombros. Resolvi ir embora.
Cruzei todo o estacionamento (não lembro de ter visto carros) e olhei para trás. Só então percebi que a casa parecia uma grande igreja, um enorme salão. Todo branco.
Ao pisar do lado de fora dos portões, vi uma rua que subia para lugar algum. Tinha o asfalto desgastado, empoeirado, pedras soltas. Cruzei a via para o lado de lá. Alguns carros passaram por mim: me recordo de um Ford 1917 e de um corvette novinho em folha, conversível, guiado por uma mulher lindíssima.
Fazia sol. O céu estava limpo. Olhei o vazio da rua. De repente, dois garotos apareceram de bicicleta, descendo a toda velocidade. Do primeiro não guardei o rosto. Mas o segundo... esse me parecia familiar. E foi justo ele quem não aguentou o tranco da via esburacada e levou um belo tombo. Capotou, passou por cima da bicicleta. Caiu dentro de uma boca-de-lobo aberta exatamente aos meus pés. Ele sentia dores, deu impressão que seria levado pelo esgoto. Mas eu estava lá e agarrei sua mão direita. No primeiro momento, não consegui resgatá-lo. Gritei por ajuda e ninguém veio. Num suspiro de muita força, no entanto, puxei-o para a calçada.
Ele estava ferido, mas também suas chagas não ficaram gravadas na minha mente. Pedi socorro outra vez: nada. Peguei-o no colo com os dois braços. Outros carros passaram por mim: ninguém parou. Mais um suspiro de força e subi toda a rua, acompanhado do outro garoto. Ao chegar lá em cima, encontrei uma passagem de acesso à avenida principal. Olhei para a via movimentada e não sabia o que fazer. Não tinha idéia de quem seriam os pais daquela criança. Nem telefones, nem contatos. Absolutamente nada. E a outra criança não abria a boca. Percebi então que eu teria de cuidar sozinho dos dois, de alguma forma.
Depois disso, eu não dormi mais.
quinta-feira, 27 de setembro de 2007
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