domingo, 30 de setembro de 2007

Dois mendigos

Só tive tempo de encostar a cabeça no vidro e fechar os olhos. O cochilo que se desenhava foi interrompido por alguém que vociferava lá no fundo do vagão. Uma voz rouca, gutural, talvez de tanto dizer a mesma coisa, clamando por ajuda e comida. Olhei pra trás por cima do ombro direito. Vestia uma calça jeans clara e um camisa quase no mesmo tom. Pouco sujo. "Mais um", pensei. "Como mais um? Não pode haver 'mais um'!", retruquei-me. Respirei fundo. Lembrei que já o havia visto antes. Outro dia ele tinha ficado nervoso com uma mulher que duvidou que ele era realmente cego e não tinha condições de trabalhar pelo próprio sustento.

Depois de ditar o discurso, veio um silêncio. Imaginei que tivesse partido e consegui concentrar-me nas minhas retinas. Tomei um susto quando ele retomou o texto inteiro bem na minha frente. Dentes tortos, expressão de tristeza. E ofereceu a poderosa voz para a plateia ora atenta, ora indiferente. E cansado de ouvir respostas duvidando de sua cegueira, tomou a atitude mais agressiva e inesperada de todas: com os dedos calejados da mão esquerda, abriu uma das pálpebras e arrancou o olho de vidro que lá se escondia.

Tivesse eu tomado o café da manhã, vomitaria. Desta vez a pressa matinal me salvou. Fez o mesmo com a outra vista. Mas eu estava preparado e desviei o olhar. Alguém colocou em suas mãos um sanduíche. Não sei se por dó, talvez apenas na tentativa de fazê-lo parar com aquilo. Ele agradeceu e caminhou porta afora tão logo elas se abriram. A grande ironia ninguém notou. O faminto desceu bem na Washington Station. Abaixo da placa com o nome do primeiro e reverenciado presidente dos Estados Unidos, farejou seu pão e rasgou a embalagem como se fosse a última refeição da vida.

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Só tive tempo de encostar a cabeça no vidro e fechar os olhos. O cochilo que se desenhava foi interrompido por alguém que vociferava e se esforçava para jogar suas tralhas bem na minha frente. "Sim, existe mais um", pensei. "Sempre haverá mais um", entristeci-me. Na minha frente, outra vez na minha frente. Fim de tarde, por favor, cuide bem do seu discurso, pois desta vez estou com o estômago cheio. A voz também calejada segurou minha atenção. Ele não pediu dinheiro pra comer. Tudo o que ele queria era comprar um violão novo, já que o dele havia sido roubado madrugadas antes. E ele estava triste, pois a música era tudo pra ele. "Cantar é o que me mantém vivo, mas eu preciso do meu violão, por favor". Um nó pesado sufocou minha garganta.

Ele se equilibrou no trem em movimento. Tirou o boné, estendeu o braço diante de todos nós. Baixou a cabeça e, como Joe Cocker, começou a cantar os versos de John Lennon.

"Imagine there's no heaven/It's easy if you try/No hell below us/Above us only sky", e os meus olhos ficaram arregalados.

"Imagine there's no countries/It isn't hard to do/Nothing to kill or die for/And no religion too" me fizeram encolher.

"Imagine all the people/Living life in peace/You may say, I'm a dreamer/But I'm not the only one" soaram-me como um tapa na cara.

"Imagine no possessions/I wonder if you can/No need for greed or hunger/A brotherhood of man" acertaram-me a outra face.

"Imagine all the people sharing all the world" invadiram-me a alma e jogaram-na contra a parede.

2 comentários:

José Casadei disse...

E ae, Guilherme .. legal seu bolg, cara! Espero que tenha sucesso aí no "Circus" ... abração! Zé Olivio

Gui Sierra disse...

Grande Zé!!!
Legal ter voce aqui no blog também!
A gente se fala
abração