sábado, 22 de setembro de 2007

As rugas

A simpatica velhinha subiu no onibus com tanta dificuldade... Nada que as rugas pudessem esconder uma alegria de viver: peruca, boca bem contornada de batons vermelhos, brincos, bolsa. Um agasalho cor de rosa e calcados que nao notei. Muito diferente da outra que estava no ponto e, lacrimejando, lamentou-se comigo das dores nas ancas. Enfim, subiu e acomodou-se no lugar respeitosamente deixado por uma jovem. Sorriu, talvez tenha rido de si mesma, olhou para os lados, para as outras pessoas ao redor, por um segundo me olhou diretamente nos olhos.

E aquele instante congelou. De onde voce veio, minha senhora? Qual ventre te pariu? Ha' uma curiosidade em mim o tempo todo. Minha predilecao pelas minorias fazem-me questionar integralmente a origem das pessoas. A contagem regressiva da vida que nos direciona para alguma interseccao no tempo-espaco. E' engracado porque estamos sempre vindo de algum lugar. Nao me refiro ao divino, digo das ruas, das estradas, das maes e dos pais. Eu ocupo o mesmo metro quadrado que o sem-teto: alguem deve te-lo amamentado, criado-o, alimentado-o, jogado-o no asfalto algum dia. E no entanto eu vim de tao longe para ouvir dele um pedido de ajuda, um prato de comida, centavos, se possivel. Onde ele nasceu?

Uma mulher robusta cruzou meu caminho por essas esquinas. Ela fedia urina. Olhei pra tras e vi as manchas em sua calca. Tal qual nas ruas paulistanas. Quais estradas conduziram-na ate aqui? O que ela fez de errado para merecer tao poucas e sujas roupas? Quais magoas levaram-na `a beira da loucura? Quais rasteiras derrubaram-na? E quais alegrias ja' viveu? De quantos amores desfrutou? Tudo isso eu sei de mim. E novamente olhares que brevemente se cruzam por cima dos ombros querem ouvir as respostas. Ha' um grito surdo/mudo de "hei, me responda!". Mas nos calamos. Armazenamos tudo na consciencia. Deixamos para outro dia ou esquecemos ali.

Ha quem queira compartilhar. Ele chegou com dificuldades a mim. Passos curtos, buscando apoio do chao. Um bone' protegendo as vistas do sol e as lentes insuficientes para evitar as vistas cerradas. Por isso se aproximou ainda mais. Queria apenas mostrar com orgulho sua companheira sentada numa cadeira de rodas. "Oi, essa e' a minha namorada. Eu a amo ha' 69 anos e, desde aquele dia, vivemos juntos. E vou continuar amando." Ela simplesmente ergueu a cabeca em minha direcao, bem devagar, para me oferecer um sorriso. Depois foram embora.

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