Estava sentado no ponto de ônibus olhando o sol cair por trás das palmeiras e senta um jovem senhor ao meu lado. Simpático, comunicativo, apenas com uma mala de viagem. Sorridente, tão pensativo quanto eu, ele abriu um porta-sedas, tirou uma folha, picou uma fatia de tabaco. Acendeu, deu o primeiro trago. Riu e me disse assim:
"Que fácil, não é? Tão fácil chegar até aqui, estou impressionado. Acabei de chegar de Nova York, peguei o metrô até Norwalk, de lá um ônibus até aqui e agora pego a linha 29. Você pega a linha 29 também?"
O rosto dele não me era estranho. Uma sensação familiar, ou alguém parecido com outro alguém da TV. Sei quem parece, está na ponta do cerebelo, mas não lembro.
"Sim, pego a linha 29."
"Não é demais! Não é engraçado? Estou chegando do outro lado do país e agora estamos aqui. Veja só como as coisas funcionam. É fácil se locomover, ir pra onde quisermos. Eu moro tanto tempo aqui e nunca havia me dado conta como é fácil ficar sem carro, até mesmo na Califórnia. Adorei esses hacks que transportam bicicletas na frente do ônibus. Que idéia genial."
"Ah, você mora por aqui? Tá voltando de férias?"
"Não. Moro em Nova York, vim visitar uns amigos."
"Puxa, que legal. É bom visitar os amigos."
"Sim, aos 62 anos é mais legal ainda. Aproveitar para rever os amigos realmente especiais. Sabe por que esses meus amigos são realmente especiais?"
"Humm... não."
"Porque em março eu tive um problema sério de próstata e vim me tratar aqui perto, em Yorba Linda. E foram essas pessoas que me deram um atendimento muito especial. Vim dar um abraço neles."
Por um momento fiquei completamente sem saber como continuar a conversa. Fui salvo pelo Roger, um dos grandes amigo dele, que o chamou pelo celular.
"Oi Roger!!! Tudo bem??? Já estou aqui!!! Sim, estou no cruzamento da Imperial com a Beach Boulevard, conversando com um novo amigo aqui. Ele está me explicando como funcionam os ônibus, trocando umas idéias. Você vai me pegar aqui? Não, não precisa, ele está aqui ao meu lado e me explica como chegar. Bom, ok, aguardo você aqui então."
Ele desliga e volta pra mim.
"O Roger vem pra cá. Sabe, como eu estava dizendo, outra coisa engraçada é o quanto ouvimos o espanhol aqui na California. Todo mundo fala espanhol e inglês ao mesmo tempo."
Nem deu tempo de eu dizer alguma coisa.
"Oi Roger, sim, ok."
Desligou. Aí foi a minha vez.
"E como está Nova York?"
"Nova York está estranha. Economicamente complicada. A situação lá está difícil".
Não era exatamente o papo que eu queria ter, mas entrei.
"Que engraçado. Aqui na Califórnia é o oposto. Placas de 'contrata-se' pra tudo quanto é lado".
Senti que ele me daria uma excelente resposta. Tipo respostas de professor de Ciências Sociais, daquelas que a gente finge que é nossa e fica repetindo pros colegas e familiares. Mas o Roger, aquele puta cara legal, desta vez atrapalhou. Foi rápido. Ele volta com a empolgação.
"Sabe, eu falo espanhol. Falo espanhol muito bem. Vim conversando com todo mundo. Muito legal. Também falo alemão. Gosto de estudar os idiomas. Tempos atrás eu tive uma namorada brasileira, de São Paulo, e comecei a aprender o português. Pena que até hoje eu só conheci uma pessoa que falasse português. Ela."
Não. Aquilo não podia estar acontecendo. Um senhor de 62 anos voa de Nova York até LA, pega um metrô até Norwalk, um ônibus até a Imperial e senta do meu lado pra dizer que fala português.
"Pois, então, senhor. Muito prazer. Meu nome é Guilherme, sou brasileiro, de São Paulo e falo português."
"Nããão! Sério? Vamos falar português! Agora. Quero dizer, eu não sei falar, mas entendo perfeitamente. Vamos, pode começar a falar. Diga alguma coisa."
Dizer alguma coisa? Assim, do nada? Que sensação estranha. É como alguém que você nunca viu na vida chegasse ao seu lado e te dissesse "Oi! Tudo bem? Como vai? E aí, quais são as novidades?" Mudez total. Não pude pensar por mais do que cinco segundos, pois ele já estava olhando para a minha cara, esperando o primeiro verbo. Soltei a primeira frase. A partir daí eu falava português e ele, inglês.
"Ééé... Nossa, eu acho o português uma língua muito difícil para quem não é nativo do idioma. Deve ser difícil aprender."
"Bom, difícil é, mas dá pra aprender. O meu maior problema é que parece que existem vários tipos de português."
"Pois é. Vá para Portugal, saia de Lisboa, e a coisa começa a complicar bastante."
"Não digo nem em Portugal, país que ainda vou visitar. No Brasil mesmo tem muita diferença. O sotaque do Rio de Janeiro, por exemplo, é bem marcante comparado ao de São Paulo."
A-hã. O cara se adiantou completamente ao meu papo. Era o que eu ia explicar: o 's' com som de 'sch' e o 's' com som de 's' mesmo. Ele que me explicou. Bom, segui por outro caminho.
"Mas senhor, diga uma coisa. Aprendeu a entender o português só conversando com a sua ex-namorada?"
"Que nada. Ficamos juntos só por uns três meses. Mas fiquei muito interessado pelo idioma. Aí entrei na Internet, encontrei uma escola, comprei os áudios, videos e livros de aprendizado e comecei a estudar."
Uau. Aquele jovem senhor parecia estar testando a minha capacidade de continuar uma boa conversa. Mas eu já tinha uma lista gigante de perguntas para saber mais da sua história. Tristemente não pude saca-la das mangas. O 29 dobrou a esquina. Levantamos do banco quase ao mesmo tempo: eu para ir ao ônibus, ele para atender o Roger.
"Senhor? Tchau, até mais. Senhor? Tenho de subir! Senhor?"
Ele não me ouviu e o ônibus partiu. Tchau, senhor... fique em bem... e dê um abraço no Roger por mim.
quinta-feira, 30 de agosto de 2007
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2 comentários:
Gui, seus textos estão maravilhosos! Parabéns... eu os leio todos os dias e já fico esperando o próximo... vc é fantástico!
Abraço
Téia
Oi Téia! Obrigado! Legal ter vc aqui no LA Circus.
grande bj
Gui
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