terça-feira, 28 de agosto de 2007

Observatório

Do alto do meu minarete, do topo da minha torre de comando, da sacada do meu castelo, eu sou o observador. Quem passa pelo meu campo de visão é registrado. Eu sei das unhas mal-pintadas, dos cílios postiços, dos brincos delicados. Sei dos cabelos bem cortados, dos dentes tortos, dos melhores amigos, dos solitários, dos cheiros de perfume, das roupas velhas e novas, das bolsas de marca. Dos corpos bem delineados, de todos os decotes que deitam diante de mim. Do desfile de saias e pernas ao sol. Dos gays, das lésbicas, dos heteros, dos casais, das famílias inteiras eu sei. Dos idosos simpáticos e dos amargurados. Sei dos olhos mais profundos, dos rasos e dos mais distantes. Também sei dos portadores de deficiência e de transtornos compulsivos obsessivos. Sei até dos sem-teto que juntam migalhas e vêm à mim por um prato de feijoada e tiras de alcatra sem coragem de me fitar nos olhos.

Mas na linha de frente estou completamente exposto e não havia percebido que o observado sou eu.

Notam-me a barba por fazer, a limpeza do meu avental. Reparam-me a velocidade com que conto notas de 1 dólar, as moedas que escorrem-me por entre os dedos. Contam as horas a fio que fico em pé e quantas garrafas de água posso beber em 10 horas. Percebem-me quão rápido posso pesar um prato de comida, quão bem sou capaz de servi-los. Investigam minha honestidade. Medem minha solicitude. Sublinham-me as falhas. Procuram nas minhas retinas todos os ois e os obrigados. É de mim que esperam o último sorriso (se a primeira impressão é a que fica, a última é a única capaz de sanar).

2 comentários:

Castro disse...

Anda lendo Clarice Lispector?
bjs, Ciça

Gui Sierra disse...

hahaha, Oi Ciça!
Que nada... acho que são os fios brancos que despontam na minha barba :-))))
grande beijo
Gui

ps: tá vendo como os Edel-U dão resultado? Agora precisa aprender alguns detalhes do blog, tipo colocar foto, video, links e tal...