Sempre tive vontade de perguntar diretamente para um norte-americano o que ele pensa da(s) guerra(s). Ainda não perguntei, mas algumas pistas confesso que me deixaram um pouco mais aliviado. Tudo bem, aqui é a Califórnia, berço do Paz e Amor, onde pessoas do mundo inteiro se encontram e trocam informações. Mas as manifestações contra a invasão do Iraque e, especialmente, contra Bush e seus comparsas, indicam que a juventude está realmente incomodada com o rumo das coisas. Não só porque os soldados estão longe de casa (!), mas principalmente porque civis iraquianos estão morrendo aos montes.
Sábado 11 estive no Rock The Bells, um evento de rock e hip hop nas montanhas de San Bernardino. Um dia inteiro de sol, muita água e alguma cerveja (não porque não tinha, pelo preço mesmo - 10 dólares!). 65 mil pessoas: punks, pais e filhos, casais, patricinhas, rappers, gangsters, roqueiros e "gente normal" também. Tudo em nome de Public Enemy (do clássico Fight the Power), Cypress Hill (de How Could I Just Killed a Man, Ain't Going Out Like That, Insane in the Brain...) e Rage Against The Machine (de Testify, Freedom, Bombs Over Bagdad, Bullet in the Head... enfim, do album inteiro The Battle of Los Angeles). A volta do Rage por si só já é um pequeno passo para a banda, mas um grande salto para a humanidade. Ninguém como Zack de la Rocha para fazer uma multidão inteira cantar "The environment exceeding on the level of our unconciousness/For example/What does the billboard say/Come and play, come and play/Forget about the movement/Freedom!!!!!!!!". A conservadora rede de televisão Fox News ficou preocupada e levou ao ar a notícia de que a banda estava fazendo apologias à violência e pregando o assassinato de Bush. Num show em Nova Iorque, Zack respondeu e classificou a emissora de "fascist motherfuckers". E ainda se deu ao trabalho de dar uma entrevista à revista Rolling Stone deste mês, explicando que não se tratava de sugestão ao assassinato, e sim que Bush deveria ser entregue a um tribunal internacional criminal e enforcado ou fuzilado. Simples assim.
Por todo o espaço de Rock The Bells podia-se ver (ou comprar) camisetas com fotos de Bush, Condee Rice e Dick Cheney sob a inscrição "Procurados Por Crimes Contra a Humanidade", "Donos de Armas de Destruição em Massa" ou com a cara de Bush sob a legenda "Not My President".
Camisetas da mesma estirpe também estavam muito bem distribuídas pela esquina que une a Sunset e a Santa Monica Boulevard, a poucas milhas de Hollywood, onde aconteceu no sábado passado o Sunset Junction Street Fair - uma feira de rua recheada de barracas de entretenimento, comida, roupas, artesanato, muita música... e com um grande show de Ben Harper pra fechar a noite. Um brilhante evento cultural pela módica quantia de 15 dólares. Harper foi genial ao levar milhares a cantar With My Own Two Hands, cuja letra faço questão de reproduzir abaixo:
I can change the world
With my own two hands
Make it a better place
With my own two hands
Make it a kinder place
With my own two hands
With my own, with my own two hands
I can make peace on earth
With my own two hands
I can clean up the earth
With my own two hands
I can reach out to you
With my own two hands
With my own, with my own two hands
I'm gonna make it a brighter place
With my own two hands
I'm gonna make it a safer place
With my own two hands
I'm gonna help human race
With my own two hands
With my own, with my own two hands
With my own, with my own two hands
I can hold you
In my own two hands
I can comfort you
With my own two hands
But you've got to use
Use your own two hands
Use your own, use your own two hands
Oh, you got to use your own two hands
With our own, with our own two hands
Bom, para não dizerem que a rebeldia é marca da juventude e manifestar contra algo simplesmente "faz parte", a praia de Santa Mônica ontem estava forrada de cruzes representando soldados norte-americanos mortos no Iraque (3.500 e poucos). Até aí parecia óbvio, apenas mais um sinal de patriotismo cego - afinal Santa Mônica é a praia que todo angeleno médio freqüenta. Mas uma única placa à frente do "cemitério" invertia toda a lógica: "Se tivéssemos de colocar uma cruz para cada iraquiano morto, esta praia não seria suficiente". E mais a informação de que 600 mil pessoas já morreram e mais de 1 milhão ficaram feridas, acompanhada de uma exposição de fotos jornalisticamente belíssimas e factualmente trágicas de crianças atingidas pela guerra, de crianças amedrontadas diante das armas, de adultos sofrendo pela violência, de mulheres chorando pelos mortos, de soldados de ambos os lados feridos em hospitais de guerra. À frente da beleza do Pacífico e diante do famoso píer de Santa Mônica, a manisfestação organizada pelos Veteranos a Favor da Paz se tornou um agressivo contraste que, sem dúvida, colocou muita gente pra pensar.
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
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5 comentários:
Oi, Jovem Gui! Cara, muito legal receber escritos teus. Que vc encontre a parte do todo ou o todo da parte pelas terras de Tio Sam!
Que Los Angeles te abençoem!
Tio Nenê.
Gui!!!
Adorei o blog da viagem e da viagem dentro da viagem...e por aí vai né.
Saudades,
Debbie
Oi Debbie!!! Falta um Samaro aqui viu? rs rs rs
bjs a todos
Gui, muitos muitos muitos americanos são anti-Bush e contra a guerra. Aliás, metade do país não votou nesse cara. Não dá pra generalizar, tem muita gente consciente aí e, como vc vai descobrir logo, muito mais do que aqui no Brasil. Consciente sobre o meio-ambiente, sobre a comunidade em que vivem, sobre várias coisas. Não é uma sociedade perfeita, longe disso, tem várias falhas e inúmero problemas, mas não é à toa que se vive melhor aí meu querido. Aí as pessoas são conscientes e lutam por seus direitos.
Aqui os caras elegem o Renan Calheiros e quando ele é desmascarado acham que precisa haver um impeachment do Lula (?!?!?!). Não que eu não ache que precisem bombardear Brasília inteira e matar todos esses fdps (se o Bush estivesse junto ainda seria um bônus), mas pelamor, né?
Por isso eu bebo, amigo!!! E ainda bem que a ceveja aqui é bem mais barata que 10 dólares hahahaha
bjs
bom comeco
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