Estava sentado no ponto de ônibus olhando o sol cair por trás das palmeiras e senta um jovem senhor ao meu lado. Simpático, comunicativo, apenas com uma mala de viagem. Sorridente, tão pensativo quanto eu, ele abriu um porta-sedas, tirou uma folha, picou uma fatia de tabaco. Acendeu, deu o primeiro trago. Riu e me disse assim:
"Que fácil, não é? Tão fácil chegar até aqui, estou impressionado. Acabei de chegar de Nova York, peguei o metrô até Norwalk, de lá um ônibus até aqui e agora pego a linha 29. Você pega a linha 29 também?"
O rosto dele não me era estranho. Uma sensação familiar, ou alguém parecido com outro alguém da TV. Sei quem parece, está na ponta do cerebelo, mas não lembro.
"Sim, pego a linha 29."
"Não é demais! Não é engraçado? Estou chegando do outro lado do país e agora estamos aqui. Veja só como as coisas funcionam. É fácil se locomover, ir pra onde quisermos. Eu moro tanto tempo aqui e nunca havia me dado conta como é fácil ficar sem carro, até mesmo na Califórnia. Adorei esses hacks que transportam bicicletas na frente do ônibus. Que idéia genial."
"Ah, você mora por aqui? Tá voltando de férias?"
"Não. Moro em Nova York, vim visitar uns amigos."
"Puxa, que legal. É bom visitar os amigos."
"Sim, aos 62 anos é mais legal ainda. Aproveitar para rever os amigos realmente especiais. Sabe por que esses meus amigos são realmente especiais?"
"Humm... não."
"Porque em março eu tive um problema sério de próstata e vim me tratar aqui perto, em Yorba Linda. E foram essas pessoas que me deram um atendimento muito especial. Vim dar um abraço neles."
Por um momento fiquei completamente sem saber como continuar a conversa. Fui salvo pelo Roger, um dos grandes amigo dele, que o chamou pelo celular.
"Oi Roger!!! Tudo bem??? Já estou aqui!!! Sim, estou no cruzamento da Imperial com a Beach Boulevard, conversando com um novo amigo aqui. Ele está me explicando como funcionam os ônibus, trocando umas idéias. Você vai me pegar aqui? Não, não precisa, ele está aqui ao meu lado e me explica como chegar. Bom, ok, aguardo você aqui então."
Ele desliga e volta pra mim.
"O Roger vem pra cá. Sabe, como eu estava dizendo, outra coisa engraçada é o quanto ouvimos o espanhol aqui na California. Todo mundo fala espanhol e inglês ao mesmo tempo."
Nem deu tempo de eu dizer alguma coisa.
"Oi Roger, sim, ok."
Desligou. Aí foi a minha vez.
"E como está Nova York?"
"Nova York está estranha. Economicamente complicada. A situação lá está difícil".
Não era exatamente o papo que eu queria ter, mas entrei.
"Que engraçado. Aqui na Califórnia é o oposto. Placas de 'contrata-se' pra tudo quanto é lado".
Senti que ele me daria uma excelente resposta. Tipo respostas de professor de Ciências Sociais, daquelas que a gente finge que é nossa e fica repetindo pros colegas e familiares. Mas o Roger, aquele puta cara legal, desta vez atrapalhou. Foi rápido. Ele volta com a empolgação.
"Sabe, eu falo espanhol. Falo espanhol muito bem. Vim conversando com todo mundo. Muito legal. Também falo alemão. Gosto de estudar os idiomas. Tempos atrás eu tive uma namorada brasileira, de São Paulo, e comecei a aprender o português. Pena que até hoje eu só conheci uma pessoa que falasse português. Ela."
Não. Aquilo não podia estar acontecendo. Um senhor de 62 anos voa de Nova York até LA, pega um metrô até Norwalk, um ônibus até a Imperial e senta do meu lado pra dizer que fala português.
"Pois, então, senhor. Muito prazer. Meu nome é Guilherme, sou brasileiro, de São Paulo e falo português."
"Nããão! Sério? Vamos falar português! Agora. Quero dizer, eu não sei falar, mas entendo perfeitamente. Vamos, pode começar a falar. Diga alguma coisa."
Dizer alguma coisa? Assim, do nada? Que sensação estranha. É como alguém que você nunca viu na vida chegasse ao seu lado e te dissesse "Oi! Tudo bem? Como vai? E aí, quais são as novidades?" Mudez total. Não pude pensar por mais do que cinco segundos, pois ele já estava olhando para a minha cara, esperando o primeiro verbo. Soltei a primeira frase. A partir daí eu falava português e ele, inglês.
"Ééé... Nossa, eu acho o português uma língua muito difícil para quem não é nativo do idioma. Deve ser difícil aprender."
"Bom, difícil é, mas dá pra aprender. O meu maior problema é que parece que existem vários tipos de português."
"Pois é. Vá para Portugal, saia de Lisboa, e a coisa começa a complicar bastante."
"Não digo nem em Portugal, país que ainda vou visitar. No Brasil mesmo tem muita diferença. O sotaque do Rio de Janeiro, por exemplo, é bem marcante comparado ao de São Paulo."
A-hã. O cara se adiantou completamente ao meu papo. Era o que eu ia explicar: o 's' com som de 'sch' e o 's' com som de 's' mesmo. Ele que me explicou. Bom, segui por outro caminho.
"Mas senhor, diga uma coisa. Aprendeu a entender o português só conversando com a sua ex-namorada?"
"Que nada. Ficamos juntos só por uns três meses. Mas fiquei muito interessado pelo idioma. Aí entrei na Internet, encontrei uma escola, comprei os áudios, videos e livros de aprendizado e comecei a estudar."
Uau. Aquele jovem senhor parecia estar testando a minha capacidade de continuar uma boa conversa. Mas eu já tinha uma lista gigante de perguntas para saber mais da sua história. Tristemente não pude saca-la das mangas. O 29 dobrou a esquina. Levantamos do banco quase ao mesmo tempo: eu para ir ao ônibus, ele para atender o Roger.
"Senhor? Tchau, até mais. Senhor? Tenho de subir! Senhor?"
Ele não me ouviu e o ônibus partiu. Tchau, senhor... fique em bem... e dê um abraço no Roger por mim.
quinta-feira, 30 de agosto de 2007
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
Observatório 2
Por falar em observatório, parece que a febre dos reality shows está chegando ao auge (ou ao fundo do poço, como quiserem). Survivor, Big Brother, American Idol, American Inventor, Supernova, Família Ozzbourne, Cops e todos os projetos filhotes que vieram na esteira. Quando se pensa que não há mais nada a se criar, os produtores tiram novos coelhos das câmeras. Dois deles estreiam em breve. O primeiro será transmitido por uma emissora em espanhol e se chama Sogras, mostrando o cotidiano de casais que vivem com suas sogras (?!). Parece ser um festival de bizarrices, mas que a idéia é engraçada, isso é, digam aí.
O outro será levado ar a partir do dia 19 de setembro, pela gigante CBS. E definitivamente já é o mais polêmico desde que a fórmula da "vida real" tomou forma. Em Kids Nation, 40 crianças entre 8 e 14 anos, por 40 dias, foram isoladas num rancho no estado do Novo México e, lá, a partir do nada, tiveram de desenvolver sua própria sociedade. Sem o menor contato com os pais ou qualquer pessoa de fora. Como assim? Assim mesmo: escolher suas casas, limpa-las e organiza-las, fazer suas refeições, montar e administrar negócios, trabalhar, limpar vagões de trem, ruas... enfim, tudo para a sua sobrevivência com início no ponto zero.
A emissora vale-se do argumento de que o objetivo é mostrar como é possível desenvolver uma sociedade mais justa e fraterna, basta seguir a capacidade e pureza das crianças. E garante que todas elas foram tratadas com respeito, ética e a devida salubridade. Mas, como era de se esperar, não está fácil convencer tudo o quanto é organização civil.
Para começar, órgãos públicos querem processar os responsáveis do programa por colocar crianças para trabalhar. Os advogados da CBS estão jogando com a interpretação da lei e defendem que as crianças não "trabalharam" e, sim, "participaram" do Kids Nation.
Associações de defesa de crianças, jovens e adolescentes não tardaram a entrar na briga, questionando a segurança dos participantes. Quero dizer, dos trabalhadores. Quero dizer... ah, enfim.... Ainda mais depois de ter vazado na imprensa a notícia de que uma menina de 12 anos queimou o rosto com água quente ao tentar fazer sua refeição. Abuso e negligência são os termos mais usados pelos críticos.
O sindicato dos atores já não aguenta mais os reality shows na batalha pela a audiência. Isso porque esses programas tomam a maior parte dos canais e, por não usarem atores profissionais, engolem o espaço dos artistas nas grades televisivas. A Federação Americana dos Artistas de Rádio e Televisão (AFTRA), da qual a CBS faz parte, divulgou que está revendo o contrato com a emissora e as famílias das crianças. E mais: a emissora está sendo acusada de pagar roteiristas para o Kids Nation. Ora, se é um reality show, vida real, teoricamente não é preciso um roteirista. O que dá ainda mais carvão para a fogueira daqueles que acreditam que reality shows não passam de armação para ganhar telespectadores e anunciantes. Participantes de programas anteriores revelaram que recebiam instruções de roteiristas e até mesmo repetiam cenas/diálogos para tornar o take mais interessante/controverso.
Cada criança recebeu entre US$ 8 mil e US$ 20 mil. Alguém aí duvida que será um campeão de audiência?
O outro será levado ar a partir do dia 19 de setembro, pela gigante CBS. E definitivamente já é o mais polêmico desde que a fórmula da "vida real" tomou forma. Em Kids Nation, 40 crianças entre 8 e 14 anos, por 40 dias, foram isoladas num rancho no estado do Novo México e, lá, a partir do nada, tiveram de desenvolver sua própria sociedade. Sem o menor contato com os pais ou qualquer pessoa de fora. Como assim? Assim mesmo: escolher suas casas, limpa-las e organiza-las, fazer suas refeições, montar e administrar negócios, trabalhar, limpar vagões de trem, ruas... enfim, tudo para a sua sobrevivência com início no ponto zero.
A emissora vale-se do argumento de que o objetivo é mostrar como é possível desenvolver uma sociedade mais justa e fraterna, basta seguir a capacidade e pureza das crianças. E garante que todas elas foram tratadas com respeito, ética e a devida salubridade. Mas, como era de se esperar, não está fácil convencer tudo o quanto é organização civil.
Para começar, órgãos públicos querem processar os responsáveis do programa por colocar crianças para trabalhar. Os advogados da CBS estão jogando com a interpretação da lei e defendem que as crianças não "trabalharam" e, sim, "participaram" do Kids Nation.
Associações de defesa de crianças, jovens e adolescentes não tardaram a entrar na briga, questionando a segurança dos participantes. Quero dizer, dos trabalhadores. Quero dizer... ah, enfim.... Ainda mais depois de ter vazado na imprensa a notícia de que uma menina de 12 anos queimou o rosto com água quente ao tentar fazer sua refeição. Abuso e negligência são os termos mais usados pelos críticos.
O sindicato dos atores já não aguenta mais os reality shows na batalha pela a audiência. Isso porque esses programas tomam a maior parte dos canais e, por não usarem atores profissionais, engolem o espaço dos artistas nas grades televisivas. A Federação Americana dos Artistas de Rádio e Televisão (AFTRA), da qual a CBS faz parte, divulgou que está revendo o contrato com a emissora e as famílias das crianças. E mais: a emissora está sendo acusada de pagar roteiristas para o Kids Nation. Ora, se é um reality show, vida real, teoricamente não é preciso um roteirista. O que dá ainda mais carvão para a fogueira daqueles que acreditam que reality shows não passam de armação para ganhar telespectadores e anunciantes. Participantes de programas anteriores revelaram que recebiam instruções de roteiristas e até mesmo repetiam cenas/diálogos para tornar o take mais interessante/controverso.
Cada criança recebeu entre US$ 8 mil e US$ 20 mil. Alguém aí duvida que será um campeão de audiência?
terça-feira, 28 de agosto de 2007
Observatório
Do alto do meu minarete, do topo da minha torre de comando, da sacada do meu castelo, eu sou o observador. Quem passa pelo meu campo de visão é registrado. Eu sei das unhas mal-pintadas, dos cílios postiços, dos brincos delicados. Sei dos cabelos bem cortados, dos dentes tortos, dos melhores amigos, dos solitários, dos cheiros de perfume, das roupas velhas e novas, das bolsas de marca. Dos corpos bem delineados, de todos os decotes que deitam diante de mim. Do desfile de saias e pernas ao sol. Dos gays, das lésbicas, dos heteros, dos casais, das famílias inteiras eu sei. Dos idosos simpáticos e dos amargurados. Sei dos olhos mais profundos, dos rasos e dos mais distantes. Também sei dos portadores de deficiência e de transtornos compulsivos obsessivos. Sei até dos sem-teto que juntam migalhas e vêm à mim por um prato de feijoada e tiras de alcatra sem coragem de me fitar nos olhos.
Mas na linha de frente estou completamente exposto e não havia percebido que o observado sou eu.
Notam-me a barba por fazer, a limpeza do meu avental. Reparam-me a velocidade com que conto notas de 1 dólar, as moedas que escorrem-me por entre os dedos. Contam as horas a fio que fico em pé e quantas garrafas de água posso beber em 10 horas. Percebem-me quão rápido posso pesar um prato de comida, quão bem sou capaz de servi-los. Investigam minha honestidade. Medem minha solicitude. Sublinham-me as falhas. Procuram nas minhas retinas todos os ois e os obrigados. É de mim que esperam o último sorriso (se a primeira impressão é a que fica, a última é a única capaz de sanar).
Mas na linha de frente estou completamente exposto e não havia percebido que o observado sou eu.
Notam-me a barba por fazer, a limpeza do meu avental. Reparam-me a velocidade com que conto notas de 1 dólar, as moedas que escorrem-me por entre os dedos. Contam as horas a fio que fico em pé e quantas garrafas de água posso beber em 10 horas. Percebem-me quão rápido posso pesar um prato de comida, quão bem sou capaz de servi-los. Investigam minha honestidade. Medem minha solicitude. Sublinham-me as falhas. Procuram nas minhas retinas todos os ois e os obrigados. É de mim que esperam o último sorriso (se a primeira impressão é a que fica, a última é a única capaz de sanar).
quinta-feira, 23 de agosto de 2007
Deixem a vida acontecer
Saiam das agendas, deixem a vida acontecer um pouco. Abram espaço, dêem passagem, saiam da frente. Deixem a vida acontecer, pois é bem possível que você esteja em plena Broadway decadente no centro de Los Angeles até ser parado por um maluco qualquer. "Italiano?". "Não, sou brasileiro". "Ah, eu nasci no México e vivo aqui desde bebê. Sou americano, fui lutar na Guerra do Vietnã (e te apresenta a medalha pendurada no pescoço). Foram seis anos de batalha. Tudo o que eu mais fazia era fumar maconha e dar dois ou três tiros. Fumava outro, e mais dois ou três tiros".
As coisas não acontecem sempre quando a gente quer, mas elas geralmente acontecem quando não causamos impedimento nenhum. Façam o jogo cósmico. Deixem a vida acontecer que você pode até ver um caminhão passando diante dos seus olhos sobre os trilhos do metrô. "Whatta fuck???!!!" Sim, eu vi. Juro que vi um caminhão passando sobre os trilhos do metrô a 85 palmos do chão. E também juro que não havia fumado nenhum baseado vietcong. Teve direito a buzinada e motorista com o braço pra fora da janela.
Deixem a vida acontecer que perigas você entrar num bar morrendo de sede e encontra uma cerveja com o seu próprio nome! "Jose, qual a boa aí pra molhar a garganta?" "Sierra! Sierra Nevada!"
Reservem todos os minutos do seu dia para que a vida aconteça. Desbloqueie até o último segundo. Não duvide que às 11h da noite, láááá na última estação de trem, uma garota neo-punk com mp3 nos ouvidos e piercings cravados nos lábios venha te pedir um celular emprestado.
As coisas não acontecem sempre quando a gente quer, mas elas geralmente acontecem quando não causamos impedimento nenhum. Façam o jogo cósmico. Deixem a vida acontecer que você pode até ver um caminhão passando diante dos seus olhos sobre os trilhos do metrô. "Whatta fuck???!!!" Sim, eu vi. Juro que vi um caminhão passando sobre os trilhos do metrô a 85 palmos do chão. E também juro que não havia fumado nenhum baseado vietcong. Teve direito a buzinada e motorista com o braço pra fora da janela.
Deixem a vida acontecer que perigas você entrar num bar morrendo de sede e encontra uma cerveja com o seu próprio nome! "Jose, qual a boa aí pra molhar a garganta?" "Sierra! Sierra Nevada!"
Reservem todos os minutos do seu dia para que a vida aconteça. Desbloqueie até o último segundo. Não duvide que às 11h da noite, láááá na última estação de trem, uma garota neo-punk com mp3 nos ouvidos e piercings cravados nos lábios venha te pedir um celular emprestado.
quarta-feira, 22 de agosto de 2007
A cantada mexicana
- Hola. Hi. (o spanglish dele vai meio traduzido)
- Oi (o inglês dela já vai traduzido aqui)
- Trabajo? Voltava de trabajo?
- Yes (ainda com a cara olhando pra paisagem lá fora)
- Oh. Claro.
- Y... Where... Donde?
- North Hollywood.
- Ah.
...
- Que haces? Your work, compreende?
- Sou técnica de laboratório.
- Oh, nice.
- Yo vendo beer.
- Beer?
- Si. Tengo una beer store.
- Good.
- Pero... but.. no lo tengo autorización para vender. To sell, you know?
- Não tem? Mas tem de ter!
- Ahaha. Mas não tenho.
- Como compreendes español? Te gusta los mexicanos?
- Sim, trabalho com muitos mexicanos.
- Oh.
... (ela volta com a cara pra paisagem)
- What... is you... come from?
- Como?
- De onde es?
- Oh. Texas.
- Texas??? Good! Bueno! Entonces es mexicana!!!
- Não. Sou do Texas.
- Pero Texas era do México! Y hay mucho mexicanos. Y usted... como dicerlo...
- Que?
- Usted, you... es muuuuuucho nice!!!! muuuuuuucho beautiful!!!!
- Oh... ahaha... thank you.
- Su face... mira... parece mexicana...
- Será? Não. Não tem mexicanos na minha família.
- Pero se es do Texas, hay mexicanos in your family.
- ah, okay. So...
... (minutos de silêncio)
- Tienes hijos? Bebês? Babies?
- Tenho filhos, mas não são bebês.
- No bebê?
- Não. Estão na faculdade. College.
- Usted? Na faculdade? Que haces?
- Eu não. Meus filhos acabaram de entrar.
- Ooooohhhhh. I see. Compreendo. Pero es una mujer, a woman, parece um bebê!
- A-hã.
- Y es muuuuucho bonita. Muuuuuucho beautifil.
- Ah, thanks again.
... (alguns suspiros com ares de saco cheio)
- Te gusta los mexicanos?
- ...
- Mira, tienes quantos kids?
- Três.
- Uh! Piensas en mas kids?
- Não.
- Oh. Y hijos com un mexicano? Teneria un hijo muuuucho beautiful, como usted!
- A-hã.
- Si. Tu es muuuuuucho nice.
- Que piensas de ... (apontava o dedo para a própria face, para os contornos do próprio nariz, dos olhos e da boca)?
- Como?
- Te gusta mi face?
- Eu não. Mas o meu marido vai gostar muito.
- Oooohhhhh. Ahahahahaha.
... (mais alguns segundos e finalmente ela consegue ser salva pelo gongo)
- Okay. Imperial/Wilmington. Sorry, tengo de partir.
- Ah sim, sem problemas!
- Y... well... bueno.. tu es muuuuuuuuuuucho beatiful!!!!
- Oi (o inglês dela já vai traduzido aqui)
- Trabajo? Voltava de trabajo?
- Yes (ainda com a cara olhando pra paisagem lá fora)
- Oh. Claro.
- Y... Where... Donde?
- North Hollywood.
- Ah.
...
- Que haces? Your work, compreende?
- Sou técnica de laboratório.
- Oh, nice.
- Yo vendo beer.
- Beer?
- Si. Tengo una beer store.
- Good.
- Pero... but.. no lo tengo autorización para vender. To sell, you know?
- Não tem? Mas tem de ter!
- Ahaha. Mas não tenho.
- Como compreendes español? Te gusta los mexicanos?
- Sim, trabalho com muitos mexicanos.
- Oh.
... (ela volta com a cara pra paisagem)
- What... is you... come from?
- Como?
- De onde es?
- Oh. Texas.
- Texas??? Good! Bueno! Entonces es mexicana!!!
- Não. Sou do Texas.
- Pero Texas era do México! Y hay mucho mexicanos. Y usted... como dicerlo...
- Que?
- Usted, you... es muuuuuucho nice!!!! muuuuuuucho beautiful!!!!
- Oh... ahaha... thank you.
- Su face... mira... parece mexicana...
- Será? Não. Não tem mexicanos na minha família.
- Pero se es do Texas, hay mexicanos in your family.
- ah, okay. So...
... (minutos de silêncio)
- Tienes hijos? Bebês? Babies?
- Tenho filhos, mas não são bebês.
- No bebê?
- Não. Estão na faculdade. College.
- Usted? Na faculdade? Que haces?
- Eu não. Meus filhos acabaram de entrar.
- Ooooohhhhh. I see. Compreendo. Pero es una mujer, a woman, parece um bebê!
- A-hã.
- Y es muuuuucho bonita. Muuuuuucho beautifil.
- Ah, thanks again.
... (alguns suspiros com ares de saco cheio)
- Te gusta los mexicanos?
- ...
- Mira, tienes quantos kids?
- Três.
- Uh! Piensas en mas kids?
- Não.
- Oh. Y hijos com un mexicano? Teneria un hijo muuuucho beautiful, como usted!
- A-hã.
- Si. Tu es muuuuuucho nice.
- Que piensas de ... (apontava o dedo para a própria face, para os contornos do próprio nariz, dos olhos e da boca)?
- Como?
- Te gusta mi face?
- Eu não. Mas o meu marido vai gostar muito.
- Oooohhhhh. Ahahahahaha.
... (mais alguns segundos e finalmente ela consegue ser salva pelo gongo)
- Okay. Imperial/Wilmington. Sorry, tengo de partir.
- Ah sim, sem problemas!
- Y... well... bueno.. tu es muuuuuuuuuuucho beatiful!!!!
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
Cruzes em Santa Mônica
Sempre tive vontade de perguntar diretamente para um norte-americano o que ele pensa da(s) guerra(s). Ainda não perguntei, mas algumas pistas confesso que me deixaram um pouco mais aliviado. Tudo bem, aqui é a Califórnia, berço do Paz e Amor, onde pessoas do mundo inteiro se encontram e trocam informações. Mas as manifestações contra a invasão do Iraque e, especialmente, contra Bush e seus comparsas, indicam que a juventude está realmente incomodada com o rumo das coisas. Não só porque os soldados estão longe de casa (!), mas principalmente porque civis iraquianos estão morrendo aos montes.
Sábado 11 estive no Rock The Bells, um evento de rock e hip hop nas montanhas de San Bernardino. Um dia inteiro de sol, muita água e alguma cerveja (não porque não tinha, pelo preço mesmo - 10 dólares!). 65 mil pessoas: punks, pais e filhos, casais, patricinhas, rappers, gangsters, roqueiros e "gente normal" também. Tudo em nome de Public Enemy (do clássico Fight the Power), Cypress Hill (de How Could I Just Killed a Man, Ain't Going Out Like That, Insane in the Brain...) e Rage Against The Machine (de Testify, Freedom, Bombs Over Bagdad, Bullet in the Head... enfim, do album inteiro The Battle of Los Angeles). A volta do Rage por si só já é um pequeno passo para a banda, mas um grande salto para a humanidade. Ninguém como Zack de la Rocha para fazer uma multidão inteira cantar "The environment exceeding on the level of our unconciousness/For example/What does the billboard say/Come and play, come and play/Forget about the movement/Freedom!!!!!!!!". A conservadora rede de televisão Fox News ficou preocupada e levou ao ar a notícia de que a banda estava fazendo apologias à violência e pregando o assassinato de Bush. Num show em Nova Iorque, Zack respondeu e classificou a emissora de "fascist motherfuckers". E ainda se deu ao trabalho de dar uma entrevista à revista Rolling Stone deste mês, explicando que não se tratava de sugestão ao assassinato, e sim que Bush deveria ser entregue a um tribunal internacional criminal e enforcado ou fuzilado. Simples assim.
Por todo o espaço de Rock The Bells podia-se ver (ou comprar) camisetas com fotos de Bush, Condee Rice e Dick Cheney sob a inscrição "Procurados Por Crimes Contra a Humanidade", "Donos de Armas de Destruição em Massa" ou com a cara de Bush sob a legenda "Not My President".
Camisetas da mesma estirpe também estavam muito bem distribuídas pela esquina que une a Sunset e a Santa Monica Boulevard, a poucas milhas de Hollywood, onde aconteceu no sábado passado o Sunset Junction Street Fair - uma feira de rua recheada de barracas de entretenimento, comida, roupas, artesanato, muita música... e com um grande show de Ben Harper pra fechar a noite. Um brilhante evento cultural pela módica quantia de 15 dólares. Harper foi genial ao levar milhares a cantar With My Own Two Hands, cuja letra faço questão de reproduzir abaixo:
I can change the world
With my own two hands
Make it a better place
With my own two hands
Make it a kinder place
With my own two hands
With my own, with my own two hands
I can make peace on earth
With my own two hands
I can clean up the earth
With my own two hands
I can reach out to you
With my own two hands
With my own, with my own two hands
I'm gonna make it a brighter place
With my own two hands
I'm gonna make it a safer place
With my own two hands
I'm gonna help human race
With my own two hands
With my own, with my own two hands
With my own, with my own two hands
I can hold you
In my own two hands
I can comfort you
With my own two hands
But you've got to use
Use your own two hands
Use your own, use your own two hands
Oh, you got to use your own two hands
With our own, with our own two hands
Bom, para não dizerem que a rebeldia é marca da juventude e manifestar contra algo simplesmente "faz parte", a praia de Santa Mônica ontem estava forrada de cruzes representando soldados norte-americanos mortos no Iraque (3.500 e poucos). Até aí parecia óbvio, apenas mais um sinal de patriotismo cego - afinal Santa Mônica é a praia que todo angeleno médio freqüenta. Mas uma única placa à frente do "cemitério" invertia toda a lógica: "Se tivéssemos de colocar uma cruz para cada iraquiano morto, esta praia não seria suficiente". E mais a informação de que 600 mil pessoas já morreram e mais de 1 milhão ficaram feridas, acompanhada de uma exposição de fotos jornalisticamente belíssimas e factualmente trágicas de crianças atingidas pela guerra, de crianças amedrontadas diante das armas, de adultos sofrendo pela violência, de mulheres chorando pelos mortos, de soldados de ambos os lados feridos em hospitais de guerra. À frente da beleza do Pacífico e diante do famoso píer de Santa Mônica, a manisfestação organizada pelos Veteranos a Favor da Paz se tornou um agressivo contraste que, sem dúvida, colocou muita gente pra pensar.
Sábado 11 estive no Rock The Bells, um evento de rock e hip hop nas montanhas de San Bernardino. Um dia inteiro de sol, muita água e alguma cerveja (não porque não tinha, pelo preço mesmo - 10 dólares!). 65 mil pessoas: punks, pais e filhos, casais, patricinhas, rappers, gangsters, roqueiros e "gente normal" também. Tudo em nome de Public Enemy (do clássico Fight the Power), Cypress Hill (de How Could I Just Killed a Man, Ain't Going Out Like That, Insane in the Brain...) e Rage Against The Machine (de Testify, Freedom, Bombs Over Bagdad, Bullet in the Head... enfim, do album inteiro The Battle of Los Angeles). A volta do Rage por si só já é um pequeno passo para a banda, mas um grande salto para a humanidade. Ninguém como Zack de la Rocha para fazer uma multidão inteira cantar "The environment exceeding on the level of our unconciousness/For example/What does the billboard say/Come and play, come and play/Forget about the movement/Freedom!!!!!!!!". A conservadora rede de televisão Fox News ficou preocupada e levou ao ar a notícia de que a banda estava fazendo apologias à violência e pregando o assassinato de Bush. Num show em Nova Iorque, Zack respondeu e classificou a emissora de "fascist motherfuckers". E ainda se deu ao trabalho de dar uma entrevista à revista Rolling Stone deste mês, explicando que não se tratava de sugestão ao assassinato, e sim que Bush deveria ser entregue a um tribunal internacional criminal e enforcado ou fuzilado. Simples assim.
Por todo o espaço de Rock The Bells podia-se ver (ou comprar) camisetas com fotos de Bush, Condee Rice e Dick Cheney sob a inscrição "Procurados Por Crimes Contra a Humanidade", "Donos de Armas de Destruição em Massa" ou com a cara de Bush sob a legenda "Not My President".
Camisetas da mesma estirpe também estavam muito bem distribuídas pela esquina que une a Sunset e a Santa Monica Boulevard, a poucas milhas de Hollywood, onde aconteceu no sábado passado o Sunset Junction Street Fair - uma feira de rua recheada de barracas de entretenimento, comida, roupas, artesanato, muita música... e com um grande show de Ben Harper pra fechar a noite. Um brilhante evento cultural pela módica quantia de 15 dólares. Harper foi genial ao levar milhares a cantar With My Own Two Hands, cuja letra faço questão de reproduzir abaixo:
I can change the world
With my own two hands
Make it a better place
With my own two hands
Make it a kinder place
With my own two hands
With my own, with my own two hands
I can make peace on earth
With my own two hands
I can clean up the earth
With my own two hands
I can reach out to you
With my own two hands
With my own, with my own two hands
I'm gonna make it a brighter place
With my own two hands
I'm gonna make it a safer place
With my own two hands
I'm gonna help human race
With my own two hands
With my own, with my own two hands
With my own, with my own two hands
I can hold you
In my own two hands
I can comfort you
With my own two hands
But you've got to use
Use your own two hands
Use your own, use your own two hands
Oh, you got to use your own two hands
With our own, with our own two hands
Bom, para não dizerem que a rebeldia é marca da juventude e manifestar contra algo simplesmente "faz parte", a praia de Santa Mônica ontem estava forrada de cruzes representando soldados norte-americanos mortos no Iraque (3.500 e poucos). Até aí parecia óbvio, apenas mais um sinal de patriotismo cego - afinal Santa Mônica é a praia que todo angeleno médio freqüenta. Mas uma única placa à frente do "cemitério" invertia toda a lógica: "Se tivéssemos de colocar uma cruz para cada iraquiano morto, esta praia não seria suficiente". E mais a informação de que 600 mil pessoas já morreram e mais de 1 milhão ficaram feridas, acompanhada de uma exposição de fotos jornalisticamente belíssimas e factualmente trágicas de crianças atingidas pela guerra, de crianças amedrontadas diante das armas, de adultos sofrendo pela violência, de mulheres chorando pelos mortos, de soldados de ambos os lados feridos em hospitais de guerra. À frente da beleza do Pacífico e diante do famoso píer de Santa Mônica, a manisfestação organizada pelos Veteranos a Favor da Paz se tornou um agressivo contraste que, sem dúvida, colocou muita gente pra pensar.
sexta-feira, 17 de agosto de 2007
A parte do todo ou o todo da parte?
"Pai, olha só. Existe o universo. Dentro dele está o nosso planeta. Dentro dele está o nosso País. Dentro dele está o Estado. Dentro dele, a nossa cidade. Dentro da cidade, esta casa. E aqui dentro tem a gente. Quanta coisa, né?"
**********************************
Dias antes de viajar, fui me despedir do meu avô, Pedro. "Filho, existe um mundo inteiro. E é preciso saber conquistá-lo. Mas não esqueça que a sua própria mente livre é mundo. Vá conquistá-la também."
**********************************
Era justamente nessa parte do todo ou no todo da parte que eu estava pensando quando sentei por alguns minutos na plataforma de trens da Hollywood Metro Station. E a resposta veio que como alegoria. Um senhor de pele bem negra, barba bem branca, chapéu preto, calça e colete de um azul petróleo, carregando uma bolsa, veio direto em minha direção. Das costas ele sacou outra bolsa e... de lá tirou um violão afinadíssimo! Lindo! Simplesmente começou cantar um folk delicioso. Dançou, sorriu e mudou para um blues pesadíssimo, cuja letra lhe ocorria naquele instante e obedecia apenas às frações de segundo. Já tendo atraído a atenção de toda a plataforma, soltou dos pulmões o último refrão: "Hollywood or Hollywird??? Come on ya'all! The train is coming!".
**********************************
No vagão, dois brothers rastafaris discutiam religião. Amistosamente. Um argumento daqui, outro argumento de lá. Análises atrás das outras. A não ser eu, quase ninguém se importava. E lógico que fui sentar bem ao lado deles só pra ouvir e apreciar o debate. A terra prometida, Israel, Nazaré, Galiléia, Jesus, Deus, os judeus, os negros, os humanos sob o mesmo teto, a África, os escravocratas colonizadores europeus, os espanhóis que traficaram escravos por toda a América, os nossos corações hoje, o respeito pelo próximo, um Jesus negro...
"Auto da Compadecida!!! Vocês conhecem um filme brasileiro chamado Auto da Compadecida? É genial. Pra resumir, trata de um brasileiro sofredor que sempre dá um jeito de sobreviver. Mas um dia ele perde e vai para o julgamento final. O Diabo quer mandá-lo ao Inferno pela parte do todo mal que viveu. Mas a parte do todo pura o coloca diante de um Jesus negro! Talvez isso queira dizer que somos iguais diante de Deus, mas cada um com as suas próprias amarguras e vitórias."
Não. Eu não entrei na conversa. O diálogo com os rastas permaneceu só aqui no meu mundo.
...a Nigéria - a terra dos Nigers, daí o termo -, o cristianismo na África...
"Sim, claro! Aksun, norte da Etiópia. Cristianismo ortodoxo. Acredita-se que a arca com a tábua dos 10 mandamentos está escondida lá até hoje, naquela igreja gigantesca encravada numa rocha, vocês conhecem? Indiana Jones total!"
Nope, não abri a boca.
... falou irmão, vou descer aqui. Como é mesmo o seu nome?
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Dias antes de viajar, fui me despedir do meu avô, Pedro. "Filho, existe um mundo inteiro. E é preciso saber conquistá-lo. Mas não esqueça que a sua própria mente livre é mundo. Vá conquistá-la também."
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Era justamente nessa parte do todo ou no todo da parte que eu estava pensando quando sentei por alguns minutos na plataforma de trens da Hollywood Metro Station. E a resposta veio que como alegoria. Um senhor de pele bem negra, barba bem branca, chapéu preto, calça e colete de um azul petróleo, carregando uma bolsa, veio direto em minha direção. Das costas ele sacou outra bolsa e... de lá tirou um violão afinadíssimo! Lindo! Simplesmente começou cantar um folk delicioso. Dançou, sorriu e mudou para um blues pesadíssimo, cuja letra lhe ocorria naquele instante e obedecia apenas às frações de segundo. Já tendo atraído a atenção de toda a plataforma, soltou dos pulmões o último refrão: "Hollywood or Hollywird??? Come on ya'all! The train is coming!".
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No vagão, dois brothers rastafaris discutiam religião. Amistosamente. Um argumento daqui, outro argumento de lá. Análises atrás das outras. A não ser eu, quase ninguém se importava. E lógico que fui sentar bem ao lado deles só pra ouvir e apreciar o debate. A terra prometida, Israel, Nazaré, Galiléia, Jesus, Deus, os judeus, os negros, os humanos sob o mesmo teto, a África, os escravocratas colonizadores europeus, os espanhóis que traficaram escravos por toda a América, os nossos corações hoje, o respeito pelo próximo, um Jesus negro...
"Auto da Compadecida!!! Vocês conhecem um filme brasileiro chamado Auto da Compadecida? É genial. Pra resumir, trata de um brasileiro sofredor que sempre dá um jeito de sobreviver. Mas um dia ele perde e vai para o julgamento final. O Diabo quer mandá-lo ao Inferno pela parte do todo mal que viveu. Mas a parte do todo pura o coloca diante de um Jesus negro! Talvez isso queira dizer que somos iguais diante de Deus, mas cada um com as suas próprias amarguras e vitórias."
Não. Eu não entrei na conversa. O diálogo com os rastas permaneceu só aqui no meu mundo.
...a Nigéria - a terra dos Nigers, daí o termo -, o cristianismo na África...
"Sim, claro! Aksun, norte da Etiópia. Cristianismo ortodoxo. Acredita-se que a arca com a tábua dos 10 mandamentos está escondida lá até hoje, naquela igreja gigantesca encravada numa rocha, vocês conhecem? Indiana Jones total!"
Nope, não abri a boca.
... falou irmão, vou descer aqui. Como é mesmo o seu nome?
quinta-feira, 16 de agosto de 2007
A fauna angelena
Opa,
Primeira noite de trabalho não se esquece. Ninguém lá no Farmer's Market acreditou que eu ainda tinha de pegar ônibus e metrô pra ir embora. Mas era exatamente o que eu pretendia, ignorando qualquer pressão nos tornozelos em razão do dia de caixeiro. Tecla 1, pesa, total, dá o troco, thank you. Tecla 1, pesa, total, dá o troco, thank you. Tecla 1, pesa, total, dá o troco...
Fui embora às 21h00. A noite de Los Angeles é estranha. Finalmente as pessoas mais interessantes saem nas ruas. Caminhei pela Fairfax para chegar ao ponto de ônibus bem atrás do prédio da CBS. Onde aliás três hippies estavam sentado no chão pintando uma camisetas... no maior astral, sacou?
É legal caminhar por aquelas ruas. Logo veio o ônibus pro metro. Negros, latinos, americanos brancos desapegados, americanos brancos pobres. Um deles todo eufórico com as histórias do colega salvadorenho. "Tem floresta em El Salvador???". O cara ficou tão surpreso com a surpresa do outro que gaguejou: "Bem, sim, mas só na parte norte, na parte sul se concentram as cidades". Então tá.
Uma aventura antropológica se abria. Senti falta de um caderninho nas mãos pra começar a escrever (uma falha para um jornalista). Mas a memória me salva. O metrô de LA é bem bonito, limpo e tal. Reúne loucos mesmo. Mas eu gosto dessa coisa de observar pra dentro e pra fora do trem.
Logo de cara entrou que começou a fazer ginástica nos assentos. Muito performático: usou todas as barras e manetas possíveis, em movimentos por mim impraticáveis. Depois entrou um alemão que ficou muuuuito puto porque a bateria do discplayer tinha acabado. "Oh, fuck this shit!!! Does anybody has some battery to sell????" "No??? How come anybody has a bettery to sell???" É verdade. Como assim, ninguém tinha uma bateria pra arrumar e resguardar sua viagem musical?
Recostei a cabeça e procurei olhar na mão contrário. Eis que as portas se abriram e aparece uma mulher, digamos de porte mastodonte. Até que parecia uma cantora gospel, dessas do interior norte-americano. Mas usava um vestidinho creme, curtíssimo, frente única. 3kg de banha esparramando por cada abertura. Sentou e começou a falar sozinha. Tudo bem! Quem se importa? Ela estava conversando, dialogando, se divertindo.
Sentou bem ao lado de um latininho (por favor, não me levem por preconceituoso). Que estava puto também porque o trem demorava a partir. Aproveitando o fato de ter levantado e dado passagem à volumosa mulher, começou a apertar tudo quanto é botão. Inclusive os botões de emergência. Até que a voz do rádio: "May I help you sir?". "YES, JUST GOOOOOO!!!!". Genial, ele disse exatamente o que eu queria dizer o "motorista" daquela locomotiva.
Nessa altura o metrô já seguia pela superfície. Então eu podia observar toda a noite da cidade. A parte louca de LA; dowtown iluminada; as cidades fora do centro; as freeways.... e a vida passando na cabeça. Desviei a atenção quando entra um cara vendendo chocolates. Nossa, paisagem brasileira bem familiar. Não disse uma palavra. Só segurava a caixinha de sneakers... Aí ele foi lá no canto e se agaixou. De repente o cara caiu de lado! E ele próprio começou a dar risada.
Bom, cheguei na estação final. Aí tinha uma menina. Novinha. Junkie total. E grávida. Tinha tomado o trem errado e queria saber como voltar pra LA. E aqui tive de ensiná-la. Desci e fui direto ao terminal de ônibus. Afinal tinha ainda mais dois pra pegar. Meia dúzia de gatos-pingados. Chegou um cara, meio louco meio bêbado, pegou um cone (desses de trânsito), colocou na boca e começou a cantar ali. Inacreditável. Eram ainda 11h00 da noite e ele me disse que não passaria mais ônibus nenhum. Duvidei, pois a programação oficial informava saída pela noite inteira. O pior é que ele estava certo.
Respirei a noite por alguns minutos e vi um taxi chegando e corri atrás. Só que ele havia sido requisitado por telefone por uma indonésia. Uma imigrante da Indonésia. Ela falou: "sobe aí. eu vou até em casa e de lá você continua". "You pay the first ride?", eu disse. "Yeah baby, jump in". Jumped. Eu, uma senhora da Indonésia e o motorista da Guatemala. Vim no maior papo com o cara. Eu querendo praticar o espanhol e ele querendo praticar o inglês. Ele falou da família dele e perguntou sobre a minha. Ficou tão feliz quando soube que eu era brasileiro! Era como se eu fosse o proprio irmão do Ronaldinho.
Eu tava longe de casa. Pancho era o nome dele. "Mi nombre es Pancho. Mucho gusto. God bless you, hermano. Vaya con Diós". Tive de desembolsar 40 dólares pela corrida. Que na verdade me rendeu uma noite impagável.
Primeira noite de trabalho não se esquece. Ninguém lá no Farmer's Market acreditou que eu ainda tinha de pegar ônibus e metrô pra ir embora. Mas era exatamente o que eu pretendia, ignorando qualquer pressão nos tornozelos em razão do dia de caixeiro. Tecla 1, pesa, total, dá o troco, thank you. Tecla 1, pesa, total, dá o troco, thank you. Tecla 1, pesa, total, dá o troco...
Fui embora às 21h00. A noite de Los Angeles é estranha. Finalmente as pessoas mais interessantes saem nas ruas. Caminhei pela Fairfax para chegar ao ponto de ônibus bem atrás do prédio da CBS. Onde aliás três hippies estavam sentado no chão pintando uma camisetas... no maior astral, sacou?
É legal caminhar por aquelas ruas. Logo veio o ônibus pro metro. Negros, latinos, americanos brancos desapegados, americanos brancos pobres. Um deles todo eufórico com as histórias do colega salvadorenho. "Tem floresta em El Salvador???". O cara ficou tão surpreso com a surpresa do outro que gaguejou: "Bem, sim, mas só na parte norte, na parte sul se concentram as cidades". Então tá.
Uma aventura antropológica se abria. Senti falta de um caderninho nas mãos pra começar a escrever (uma falha para um jornalista). Mas a memória me salva. O metrô de LA é bem bonito, limpo e tal. Reúne loucos mesmo. Mas eu gosto dessa coisa de observar pra dentro e pra fora do trem.
Logo de cara entrou que começou a fazer ginástica nos assentos. Muito performático: usou todas as barras e manetas possíveis, em movimentos por mim impraticáveis. Depois entrou um alemão que ficou muuuuito puto porque a bateria do discplayer tinha acabado. "Oh, fuck this shit!!! Does anybody has some battery to sell????" "No??? How come anybody has a bettery to sell???" É verdade. Como assim, ninguém tinha uma bateria pra arrumar e resguardar sua viagem musical?
Recostei a cabeça e procurei olhar na mão contrário. Eis que as portas se abriram e aparece uma mulher, digamos de porte mastodonte. Até que parecia uma cantora gospel, dessas do interior norte-americano. Mas usava um vestidinho creme, curtíssimo, frente única. 3kg de banha esparramando por cada abertura. Sentou e começou a falar sozinha. Tudo bem! Quem se importa? Ela estava conversando, dialogando, se divertindo.
Sentou bem ao lado de um latininho (por favor, não me levem por preconceituoso). Que estava puto também porque o trem demorava a partir. Aproveitando o fato de ter levantado e dado passagem à volumosa mulher, começou a apertar tudo quanto é botão. Inclusive os botões de emergência. Até que a voz do rádio: "May I help you sir?". "YES, JUST GOOOOOO!!!!". Genial, ele disse exatamente o que eu queria dizer o "motorista" daquela locomotiva.
Nessa altura o metrô já seguia pela superfície. Então eu podia observar toda a noite da cidade. A parte louca de LA; dowtown iluminada; as cidades fora do centro; as freeways.... e a vida passando na cabeça. Desviei a atenção quando entra um cara vendendo chocolates. Nossa, paisagem brasileira bem familiar. Não disse uma palavra. Só segurava a caixinha de sneakers... Aí ele foi lá no canto e se agaixou. De repente o cara caiu de lado! E ele próprio começou a dar risada.
Bom, cheguei na estação final. Aí tinha uma menina. Novinha. Junkie total. E grávida. Tinha tomado o trem errado e queria saber como voltar pra LA. E aqui tive de ensiná-la. Desci e fui direto ao terminal de ônibus. Afinal tinha ainda mais dois pra pegar. Meia dúzia de gatos-pingados. Chegou um cara, meio louco meio bêbado, pegou um cone (desses de trânsito), colocou na boca e começou a cantar ali. Inacreditável. Eram ainda 11h00 da noite e ele me disse que não passaria mais ônibus nenhum. Duvidei, pois a programação oficial informava saída pela noite inteira. O pior é que ele estava certo.
Respirei a noite por alguns minutos e vi um taxi chegando e corri atrás. Só que ele havia sido requisitado por telefone por uma indonésia. Uma imigrante da Indonésia. Ela falou: "sobe aí. eu vou até em casa e de lá você continua". "You pay the first ride?", eu disse. "Yeah baby, jump in". Jumped. Eu, uma senhora da Indonésia e o motorista da Guatemala. Vim no maior papo com o cara. Eu querendo praticar o espanhol e ele querendo praticar o inglês. Ele falou da família dele e perguntou sobre a minha. Ficou tão feliz quando soube que eu era brasileiro! Era como se eu fosse o proprio irmão do Ronaldinho.
Eu tava longe de casa. Pancho era o nome dele. "Mi nombre es Pancho. Mucho gusto. God bless you, hermano. Vaya con Diós". Tive de desembolsar 40 dólares pela corrida. Que na verdade me rendeu uma noite impagável.
Cidade dos Anjos
Yeap,
Desembarquei em Los Angeles. Só pra mudar um pouco de ares, de fauna, de cheiros, de formas e de conteúdos. Com a bússola no bolso e só. Nada de GPS, satélites ou qualquer novas cartas de navegação high-tech.
Só observando...
Primeiros dólares bem gastos: Sgt Peppers (o mais importante disco de rock da história, segundo a Rolling Stone) por 10 dólares na Virgin Records. E um Post Office, primeiro romance de Charles Bukowski, por 13 buks (com o perdão do trocadilho), na Barnes & Noble.
Em cinco dias aqui no circo arrumei um emprego no caixa de uma churrascaria brasileira no Farmer's Market, o mercadão multicultural entre Hollywood e Beverly Hills. Como caixa. Legal, excelente ponto de observação.
E aqui começam minhas histórias angelenas.
Desembarquei em Los Angeles. Só pra mudar um pouco de ares, de fauna, de cheiros, de formas e de conteúdos. Com a bússola no bolso e só. Nada de GPS, satélites ou qualquer novas cartas de navegação high-tech.
Só observando...
Primeiros dólares bem gastos: Sgt Peppers (o mais importante disco de rock da história, segundo a Rolling Stone) por 10 dólares na Virgin Records. E um Post Office, primeiro romance de Charles Bukowski, por 13 buks (com o perdão do trocadilho), na Barnes & Noble.
Em cinco dias aqui no circo arrumei um emprego no caixa de uma churrascaria brasileira no Farmer's Market, o mercadão multicultural entre Hollywood e Beverly Hills. Como caixa. Legal, excelente ponto de observação.
E aqui começam minhas histórias angelenas.
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